VACINAÇÃO NO MARANHÃO TRAZ DISPUTA ENTRE PERSONALISMO E INTERESSE PÚBLICO

O jornalista, sociólogo e um dos teóricos mais interessantes da Comunicação brasileira, Muniz Sodré, concedeu entrevista à Folha de São Paulo, na última segunda-feira (31), abordando o desastre do bolsonarismo em vigência e explicando aspectos mencionados em seu mais recente livro A Sociedade Incivil (ed. Vozes). “Na governança, fórmulas ocas hibridizam política estatal, demagogia e publicidade. A política perde seu papel de mediação entre cidadãos e o Estado”, escreveu o jornalista Plinio Fraga, doutorando em Comunicação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), sobre a entrevista com Sodré. 

A leitura é absolutamente contemporânea. A efemeridade das redes sociais, o impositivo da visibilidade ratifica a velha frase do francês Roland Barthes: “a língua é fascista porque obriga a dizer”.  Sobre a “língua” leia-se, com atualidade, as redes sociais da internet. Tudo isso traz aspectos reveladores de uma instantaneidade que, mesmo em meio à pior tragédia sanitária do século XXI, não aplacou a disputa por espaços no universo volátil de web.

No Maranhão, os ocupantes dos principais cargos no Executivo, estadual e municipal da capital, fazem frequente e necessário uso da comunicação, embora com pouco investimento das verbas públicas em campanhas que poderiam atingir, por exemplo, pessoas que ainda se recusam a vacinar ou a usarem máscaras. Demagogia e publicidade são frequentemente confundidas como irmãs siamesas na comunicação política.

APOIADORES DO GOVERNADOR FLÁVIO DINO IMPULSIONAM AS REDES SOCIAIS COM ELOGIOS

Disputa midiática – Usuário frequente, nesta pandemia, do expediente das coletivas de imprensa com aspecto de palestra, o governador do Estado chegou a ser citado no Jornal Nacional, da Globo, por ter feito um “apelo” à população do estado. Flávio Dino – que é hoje presença frequente na imprensa nacional, fonte para muitos jornalistas do sul do país – foi aplaudido, esta semana nas redes sociais, por ter aguardado sua faixa etária, para ser vacinado no Palácio dos Leões. Dias depois e alguns anos mais novo, o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, também recebeu os aplausos da claque, com direito a comentários ainda mais elogiosos por ter esperado na fila da vacinação, sem imprensa. Surpresos, alguns populares filmaram o prefeito (veja abaixo).

A Prefeitura de São Luís tem realizado um mutirão de vacinação, com trabalho notadamente reconhecido pela população. O Maranhão ostenta a menor taxa de letalidade por coronavírus, segundo dados oficiais, e o Governo acaba de anunciar um “Arraial da Vacinação”, com ampla divulgação, inclusive nas publicações de veiculação nacional. Pode não ser uma disputa intencional por midiatizar quem mais trabalha pela população na guerra contra a covid-19, mas é essa a sensação. Quem ganha? Toda a população maranhense.

O prefeito de São Luís parece levar vantagem ao mostrar que não há necessidade de sisudez para se comunicar com a sociedade, especialmente anunciando uma notícia tão aguardada por tantos que perderam amigos ou familiares: a vacina. O governador do Maranhão, fiel ao seu estilo irônico, anunciou na sexta-feira (4): “No Maranhão, também estamos cuidando da vacinação do gado. E nem precisa estar no cercadinho. O Estado luta para ajudar a todos, sem delírios e com muito espírito democrático”. A afirmação era, de fato, sobre a vacinação dos rebanhos de produtores rurais. Entendedores entenderão.

Vacinar toda a população maranhense é o que qualquer cidadão de bom senso, em perfeito gozo de suas faculdades mentais, deseja em dias tão difíceis. O Governo e a Prefeitura da capital estão realizando excelente trabalho. Não basta propagandear. É preciso usar as polpudas verbas públicas da comunicação oficial não apenas para turbinar personalismos ou ambições eleitoreiras, mas para promover transformações sociais, mudanças comportamentais e, em suma, converter a informação em commodity essencial na solução de problemas e execução de políticas públicas.

Comunicação Pública – como se sabe de forma mais elementar – tem com foco principal o interesse público. O resto é cantiga para Bumba-boi dormir, quiçá, acordar.

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