Terra de Preto

A matéria que segue foi publicada pela extinta revista Parla, fundada pela editora do blog e pela jornalista e humorista Dadá Coelho, no final da década de 90. Alguns textos serão novamente publicados aqui nesta página eletrônica, considerando que a publicação fez parte da história da imprensa no Maranhão. A Parla chegou a receber, por proposição do então vereador Miécio Jorge, uma Moção de Congratulações e Aplausos da Câmara Municipal de São Luís “por contribuir para a formação de uma opinião pública lúcida, inteligente, aberta, crítica e politicamente engajada na construção de uma sociedade pluralista, democrática, solidária, justa, enfim, mais feliz”. Maranhão, Terra de Preto é um deles, com fotos de Márcio Vasconcelos e reportagem de Flávia Regina Melo. Leia abaixo:

Terra de Preto

Texto: Flávia Regina

Fotos: Márcio Vasconcelos

Nas entranhas do maranhão, ouve-se o rufar dos tambores: tambor de mina, tambor de crioula, tambor de taboca, atabaques pandeiros, pandeirões, caixas.  Mesmo os mais céticos, correm o risco de sentir a névoa mística que paira sobre lendas e encantarias, a sensualidade das danças, o sincretismo nas cerimônias religiosas e cultos, as presenças de São Benedito, o Averequete, de Catarina Mina, do negro Cosme na cultura maranhense ou dos encantados nas noites de lua cheia. Como um fantástico livro de contos, grande parte do recheio da cultura maranhense nasceu sob as bênçãos da inspiração africana.

Há quase três séculos, a força dos tambores ainda ecoa sem abafar uma história de tradição e gemidos de dor. Às véspera da independência do Brasil, o Maranhão apresentava a mais alta porcentagem de população escrava do Império. 55% do contingente populacional era formado por negros, que se concentravam nas fazendas de algodão e arroz. Não foi em vão que, no Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, o Padre Antônio Vieira reclamava: “ah, as fazendas do Maranhão, que se esses mantos e essas capas se torceram, haviam de lançar sangue!”.

Considerado pelos historiadores como uma sociedade escravista tardia, o Maranhão seguiu a vergonhosa trilha nacional de anos de exploração da mão-de-obra negra (já que o Brasil foi último país das Américas a abolir a escravidão). Hoje, é o terceiro estado brasileiro de maior população negra. Segundo um levantamento feito pelo projeto Vida de Negro, desenvolvido em conjunto pela Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos e pelo Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA), existem 401 indicações de comunidade negras rurais remanescentes de quilombos do Estado. Essas áreas foram denominadas Terras de Pretos, no início dos anos 80, quando um grupo de pesquisadores estudava no Maranhão os sistemas de uso de comum da terra. O mapa estadual é pontuado por territórios assim caracterizados.

Entre os quilombos de maior repercussão na época da escravidão, estavam o Quilombo de Limoeiro (município de Turiaçu) e o Quilombo de Lagoa Amarela (município de Chapadinha), este último de grande relevância na Guerra da Balaiada, umas das maiores e mais significativas revoltas populares do Maranhão com ecos em todo o país. 

MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA PARLA: PUBLICAÇÃO QUE TROUXE O MARANHÃO “IN NATURA” AOS LEITORES

 QUILOMBO FRECHAL: 207 ANOS DE RESISTENCIA 

A reserva extrativista Quilombola Frechal foi a primeira comunidade de negros do país a ser beneficiada com a promulgação do artigo 68, da Constituição Federal (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias), que prevê: “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Foram 20 anos de luta pela posse das terras seculares. Localizada no município de Mirinzal, a 390 km de São Luís, a área foi transformada em reserva extrativista pelo o Decreto Federal n0. 563, de 20/05/92, que ameaçava caducar devido à morosidade do processo de desapropriação do IBAMA. Somente depois de 17 dias de protestos, com a ocupação de gabinetes da superintendência do órgão por moradores e lideranças populares, os recursos foram liberados. 

 Quase 10 anos depois, os descendentes de nações africanas Mandinga, Benguela, Mina, Cabina, Angola e Congo ainda lembram com indignação das ameaças que sofriam por parte do fazendeiro paulista de Thomaz Melo da Cruz. A viúva Edwiges Carneiro, 62 anos, que teve sua casa derrubada e queimada por pistoleiros, recorda: “eu passei fome quatro dias. Me davam comer e eu não queria, não tinha fome”. Na porta de sua casa, estão os filhos e netos bem arrumados, em trajes de festa. Frechal comemorava 207 anos de resistência negra.  Em uma conversa rápida com as crianças, descobrimos que elas conhecem a apelativa Tiazinha, mas sabem muito bem que é Zumbi. “Era um negro forte escravo e fez muita coisa importante”, assegura Kelyane Silva Gomes, de 12 anos. Alguns dias no quilombo são suficientes para perceber a preocupação em manter a tradição.  Dos antepassados, até mesmo no cuidado com a estética.

Moças e adolescentes assumem sua negritude com roupas de cores fortes, trancinhas e penteados afro. Heloildes Ribeiro, 18 anos, com o cabelo milimetricamente trançado, diz que não há muito trabalho para fazer. Pergunto quanto tempo leva. “24 horas”, ela responde, tranquila como a paisagem que nos cerca. E diz com orgulho: “nós achamos bonito. O principal responsável pelo trabalho de conscientização negra da comunidade é o coordenador da associação das comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão, Ivo Fonseca Silva. É ele quem promove palestras, reuniões e discussões sobre o movimento com os jovens e velhos, inclusive, nas datas comemorativas.

JOVENS NO QUILOMBO FRECHAL: IDENTIDADE COM AFIRMAÇÃO AFRICANA

HISTÓRIAS DE MARTÍRIO

Negros cujos avós e bisavós eram proibidos de frequentar a antiga Casa-Grande, construída em 1792, agora são os grandes anfitriões do local. Visitantes de todo o país e do mundo são recebidos pelos moradores que costumam hospedar fotógrafos, jornalista, antropólogos e interessados na experiência. São 10.500 hectares onde moram 183 famílias que herdaram um modo de vida comunitária. As atividades produtivas são realizadas de maneira organizada e conjunta.

“O sol da liberdade em raios fulgidos “que nasce em Frechal parece distante de uma época em que os escravos fugiam da Baixada ocidental maranhense para se abrigar no local. Os mais antigos lembram de histórias contadas pelos seus ascendentes. Durvalino Gomes, de 90 anos, o mais velho do grupo, conta que os negros fugidos faziam tocas enormes para morar. “Lá no casarão, tinha um purão enorme que matavo os negros. Quando eles num queria trabalhar, era só empurrar lá e fechar a porta”. Durvalino recorda de detalhes sobre a vidas dos senhores Dona Mundoca e Seu Arthur, casal que foi proprietário da fazenda.

MÃE D’ ÁGUA E OUTRAS “VISAGENS” 

 Mais apegada às crenças, a nora de Seu Durvalino, uma simpática dançarina do Congo, Maria José  Gomes, diz que é comum se ouvirem passos a noite na Casa-Grande. A mesma afirmação é defendida por dona Edvirges Carneiro: “lá fazia muita visagem, morreu muito escravo! De noite eu não tenho coragem de ir lá”. Ela conta que no dia da abolição da escravatura, seus antepassados dançaram tambor de mina, manifestação religiosa de origem africana em que entidades espirituais se manifestam. Poucos querem falar. Florença coelho de 68 anos, repele: “não, mina não!’. Quanto ao porquê, ela responde: “porque tem muitos que pega santo”. Os séculos de repressão aos cultos afro produziram comentários velados sobre os assuntos. Dona Edvirges é quem desencobre  o véu, depois de alguma insistência: “agorinha uma pegou uma mãe-d’água. Ela vem direito e ainda canta”

A missa comemorativa dos 207 anos de Fechal é celebrada em ritmo de congo, dança oriunda das tradições africanas. Cânticos de igreja são entoados ao som de atabaques, agogôs e cabaças, resultando em contagiantes efeitos. O padre celebra a Eucaristia, seguido do dançarina de congo, que distribui o angu, um mingau feito de farinha, água e coco babaçu – a verdadeira comunhão da cultura negra e branca.

Discretamente, uma das mãos do padre José Antônio Souza, pároco de Mirinzal, tamborila no altar  improvisado , reproduzindo o barulho dos tambores,. Sobre  as críticas de “interferências” na liturgia da missa, ele afirma “não, a igreja não se posiciona contrária a essas práticas. Hoje, no Brasil, ela tem orientando os agentes das pastorais que a celebração deve ser inculturada dentro da realidade. Os negros fazem parte da história do Brasil com sua luta, seu trabalho, sua história”.

COMUNIDADE DE SANTO ANTÔNIO DOS PRETOS, EM CODÓ (MA): TERRA DO TERECÔ

SANTO ANTÔNIO DOS PRETOS, TERRA DE SANTA BÁRBARA.

 No lugar que leva o nome do famoso santo católico, somos conduzidos à obvia pergunta: “Vocês são devotos  de Santo Antônio?” Quase dando de ombros, Marina Moreira, de 46 anos, responde sem entusiasmo: “São”. Bastam algumas horas no lugarejo para descobrimos que o santo do nome da casa não faz milagre. Em frente à tenda espírita de umbanda Santo Antônio, há uma cruz fincada no chão, repleta de restos de caixas de vela e cera. “Deram o nome de Santo Antônio pela questão que é o povoado, mas o santo padroeiro daqui é Santa Barbara”, afirma o líder da comunidade Raimundo Ferreira Santos, de 44 anos, mais conhecido como Ubirajara.

Santo Antônio dos Pretos fica a 60 km de Codó e é considerada uma das áreas remanescentes de quilombos com maior força na tradição religiosa africana. Segunda a doutora em Antropologia, Mundicarmo Ferretti, em trabalho apresentado no V Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador, existem indícios de que o povoado teria sido um dos primeiros a organizar cultos de Terecô ou Tambor da Mata (pois era nas matas, longe dos olhos dos senhores, que os negros realizavam suas práticas). Enquanto nos leva até o altar, Raimundo confirma que o terreiro do povoado é o mais antigo da região. “Em Codó não se falava nisso quando Vitorino liberou aqui. Terecô era escondido, só se podia fazer aqui. Era muito mais perseguido do que diamba”, explica.

Segundo contam, Paulo Vitorino era um conhecido chefe de polícia de Codó da década de 30, que costumava perseguir negros que realizavam cultos africanos. As práticas só foram liberadas depois que um dia o morador conhecido como Apolinário recebeu um guia desafiando o tenente com uma toada: “Baia, baia, baiador, tenente Vitorino não vai acabar com o Terecô”. Segundo eles, o pai de santo Bita do Barão foi iniciado no povoado, mas ninguém pode receber dele nenhuma oferta. “Ele já quis botar luz elétrica, quis fazer coisa aqui, mas nós não podemos receber nada dele”, informa nosso acompanhante.

No altar do barracão, o sincretismo religioso exposto nas imagens de São Lázaro, Santa Luzia, Preto Velho, Nossa Senhora do Bom Parto, Santo Antônio e a padroeira Santa Bárbara. Entre santos católicos que correspondem a “encantados”, Santa Bárbara é uma das mais cultuadas nos terreiros de Mina do Maranhão, considerada padroeira do tambor de Mina. No candomblé, ela é associada ao orixá Iansã, mulher de Xangô, deusa das tempestades e dos ventos.

ANOS DE CONFRONTO

Toda quinta e sexta-feira, a pequena comunidade acende velas e rende homenagens à poderosa entidade. Querendo saber o que já foi possível obter com os rituais, recebo a resposta: “em primeiro lugar, o que nós conseguimos através de ritual foi essa terra aqui”, diz convicto o líder. Os descendentes dos escravos da antiga fazenda, onde hoje existe o povoado, travam uma luta contra o poder político local desde a década de 30. Só com o latifundiário e ex-deputado Vítor Trovão, foram 27 anos de confronto. Foram muitas idas e vindas judiciais até que, em agosto deste ano, os verdadeiros donos da terra receberam das mãos da governadora Roseana Sarney os títulos da área. Para eles, a terra é propriedade de Santa Bárbara.

“Toda essa questão vinha enrolada através das autoridades. Na época, os homens não tiveram coragem de dar aquilo que é de direito nosso. Então, só a governadora como mulher teve coragem de titular a terra”, afirma com força nas palavras. Raimundo Santos enfatiza: “foi Roseana e Santa Bárbara”, completa.

Maria José Moreira, de 56 anos, diz sentir um “abalo”, referindo-se à atmosfera encantada do lugar, que costuma realizar anualmente a festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro. Ela começou a dançar Terecô  aos 12 anos. Na sala de sua casa, a presença frequente  da religiosidade nos retratos de Cosme e Damião, São Jorge, Padre Cícero e Santa Joana Guerreira, a Joana D’Arc. Nossa entrevistada tem um olhar hipnótico quando diz que recebe as entidades conhecidas como “Reis da Luta do Mocambo”. Ela dança dois, três dias sem lembrar de nada. E quando eles se aproximam de você? “É uma frieza, eu fico tonta, perco os sentidos. Não lembro de nada, de nada mais na vida”, relata.

Maria José apenas acha que não lembra. As tradições africanas de seus antepassados estão bem mais vivas do que ela imagina.

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