SANTA CATARINA É RICA E O MARANHÃO É POBRE, POR QUÊ?

O economista Paulo Gala escreve sobre as pequenas semelhanças e as diferenças abissais entre o nosso estado e o de Santa Catarina, que ocupa o ranking dos cinco estados com maior rendimento junto com Distrito Federal (R$ R$ 2.685,76), São Paulo (R$ 1.945,73), Rio de Janeiro (R$ 1.881,57) e Rio Grande do Sul (R$ 1.842,98). Na “lanterninha” do desenvolvimento econômico, o Maranhão é apontado pelo pesquisador como “viciado em produtos primários”. “Uma Indústria potente tem efeitos em toda a sociedade organizada daquele estado que se reflete em melhora de renda e qualidade de vida. Um dos grandes problemas enfrentados pelo Maranhão é a baixa quantidade de trabalhadores no setor formal da economia, sendo que o índice de informalidade chega a 62,9% no estado”, analisa. Leia o artigo:

Santa Catarina é rica e Maranhão é pobre, por quê?

Paulo Gala* (escrito com Daniel Bispo)

Santa Catarina é um Estado do Sul do Brasil com aproximadamente 7,1 milhões de habitantes e Maranhão é um Estado do Nordeste do Brasil com também 7,1 milhões de habitantes, no entanto as semelhanças param por aí.

Santa Catarina tem um PIB per capita de quase 40 mil reais, um IDH em 0,808 e um índice de Gini de 0,429 – o estado menos desigual do Brasil. O Maranhão, por sua vez, tem um PIB per capita de 13 mil reais (⅓ do catarinense), um IDH em 0,687 e um índice de Gini de 0,528. São muitas determinantes históricas que somaram forças para que no atual momento as condições objetivas de ambos os estados se apresentem assim.

Uma diferença fundamental entre ambos os estados que se apresenta para entender a distinta dinâmica de acumulação de capital nesses dois lugares é a complexidade econômica. No Ranking de complexidade econômica de 2019, Santa Catarina é o 4º estado com a economia mais complexa do Brasil, ao passo que – para o mesmo ano e o mesmo ranking – o Maranhão é o 17° estado mais complexo. Ou seja, ao passo que Santa Catarina tem uma maquinaria produtiva mais diversa, alcançando um leque maior de produtos e bens que consegue fazer, o Maranhão tem isso de forma menos diversa, ficando viciado em produtos primários. Essa diferença é possível visualizar ao se analisar a estrutura produtiva de cada estado.

O PIB Industrial de Santa Catarina em 2019 era de 63 bilhões de reais e o do Maranhão era de somente 13 bilhões de reais, lembrando que ambos os estados têm a mesma população. Os 42 mil estabelecimentos industriais de Santa Catarina empregam grande massa de trabalhadores, sendo que somente a indústria no estado é responsável por 33,8% de todos os empregos formais do estado. O Maranhão, por sua vez, tem somente 4260 estabelecimentos industriais – mas mesmo assim eles são responsáveis por 10,3% do emprego formal no estado. Uma maior predominância da Indústria fomenta um melhor setor de pesquisas, remunera melhor os trabalhadores, desencadeia uma cascata de serviços em toda sociedade e emprega mais formalmente; além de repassar mais impostos para o governo estadual. Em 2019 o governo de Santa Catarina arrecadou 6,9 bilhões de reais em ICMS, ao passo que o governo do Maranhão só arrecadou 1,2 bilhões de reais em ICMS da Indústria.

Uma Indústria potente tem efeitos em toda a sociedade organizada daquele estado que se reflete em melhora de renda e qualidade de vida. Um dos grandes problemas enfrentados pelo Maranhão é a baixa quantidade de trabalhadores no setor formal da economia, sendo que o índice de informalidade chega a 62,9% no estado. Os 761 mil catarinenses empregados na indústria levantam uma massa de rendimentos desse setor, considerando somente os salários, fantástica para movimentar em cadeia todo um setor de serviços. No Maranhão esse efeito também pode ser verificado, mas em uma em proporção pelo menos 10 vezes menor, já que o estado tem somente 76,8 mil trabalhadores na indústria.

O salário médio de um trabalhador catarinense na indústria é equiparável ao de um trabalhador maranhense, sendo em Santa Catarina de 2394 reais mensais e no Maranhão de 2240 reais mensais, até porque o escolaridade do trabalhador industrial com ensino médio completo em ambos os estados é praticamente igual.

*Paulo Gama é graduado em Economia pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), é mestre e doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo (FGV-SP). Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY. É professor de Economia na FGV-SP desde 2002. Brasil, uma economia que não aprende é o título de seu último livro.

REFERÊNCIAS:

1. http://perfildaindustria.portaldaindustria.com.br/

http://perfildaindustria.portaldaindustria.com.br/ranking?cat=11&id=2409

2. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2019/08/17/internas_economia,777628/quantidade-de-trabalhadores-com-carteira-assinada-chega-ao-piso.shtml

3. https://oec.world/en/profile/subnational_bra_state/santa-catarina

4. https://oglobo.globo.com/economia/santa-catarina-o-estado-onde-desigualdade-de-renda-entre-as-familias-a-menor-22125631

5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_unidades_federativas_do_Brasil_por_IDH

6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_unidades_federativas_do_Brasil_por_PIB_per_capita

7. http://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/importancia-da-industria-para-os-estados/

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