REBECAS E RAYSSAS

A skatista maranhense Rayssa Leal e a ginasta Rebeca Andrade emocionaram o Brasil nas Olimpíadas de Tóquio. A atleta mais nova a receber uma medalha em uma olimpíada e a primeira ginasta brasileira a ser contemplada com uma premiação, em uma competição do gênero.  Ambas  possuem profundas conexões, que vão além da notoriedade proporcionada pelo bom desempenho no torneio mundial. Elas são o retrato de um Brasil de verdade, um Brasil orgânico, são remanescentes das entranhas do nono país mais desigual do mundo. Rebeca é negra, filha de uma ex-empregada doméstica e se apresentou na competição ao som de Baile de Favela, do Mc João. Rayssa decidiu que não posaria para fotos ao lado de nenhuma autoridade do Maranhão sob o argumento que não havia recebido apoio para competir. 

Favelas e periferias são territórios caracterizados justamente pela ausência do Estado. No Brasil, segundo a o obra “Um país chamado favela”, a maior pesquisa já feita sobre a favela brasileira, se as favelas fossem um estado seriam o quinto mais populoso da Federação. Em 521 anos de invasão deste pedaço de chão transformado em nação, muito pouco foi transformado no quesito dignidade.

A GINASTA REBECA ANDRADE: PRIMEIRA MEDALHA OLÍMPICA DO BRASIL NESTA CATEGORIA

A frase “morro na favela é verbo” é uma descrição gritante de que a principal política pública nas comunidades periféricas ainda é a de segurança pública ou de repressão policial, na maioria dos casos, a necropolítica. Em todas as estatísticas verificáveis e confiáveis, as mortes de jovens negros são superiores às de brancos.

São Luís, por exemplo, é uma cidade com parte significativa da juventude refém do tráfico de drogas, com sua Cidade Olímpica e milhares de Rebecas e Rayssas à espera de oportunidade para vencer, não necessariamente em uma competição mundial. Mais do que Medalha Olímpica, é preciso política pública, compromisso, responsabilidade social e muito amor por gente para transformar o destino de gerações.

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