Psicóloga maranhense esclarece sobre automutilação e o jogo Baleia Azul

Em 2012, a psicóloga maranhense Anna Karla Rabelo Garreto já era fonte em uma matéria publicada pela revista VEJA, com o título “Na própria carne”, sobre jovens que se automutilam. O assunto, apesar de pouco explorado no Brasil, tem sido objeto de estudos da profissional.

Mestre em Ciências pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Anna Karla é especialista em Neuropsicologia (Universidade Federal de São Paulo- UNIFESP), Psicologia Hospitalar (Centro de Estudos e Pesquisas em Psicologia da Saúde – CEPPS) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (Universidade Federal Fluminense- UFF). Ela vive atualmente em São Paulo, onde se dedica há alguns anos ao tema, que só se tornou popularmente conhecido no Brasil agora, com os adolescentes vítimas do jogo Baleia Azul, que se mutilam e, em casos mais graves, são induzidos ao suicídio. Nesta entrevista, Anna Karla orienta pais e responsáveis no relacionamento com os jovens e defende a necessidade de combater os preconceitos, “ao tratar os transtornos mentais, da mesma forma que tratamos as doenças orgânicas”.

A automutilação é um assunto pouco conhecido da população em geral. Como está o quadro dessa patologia no Brasil?

A automutilação é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo, sem intenção suicida consciente. Geralmente, o intuito é reduzir emoções negativas (ansiedade, tristeza etc) e/ou uma forma de lidar com uma situação problema. A prática inicia-se, com mais frequência, no início da adolescência e pode continuar até a fase adulta. A incidência da automutilação tem crescido mundialmente e, diante disso, tem sido mais estudada e pesquisada. Na última revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V), a automutilação vem como um transtorno da infância e adolescência, que precisa de estudos posteriores para ser caracterizado como um transtorno, não só um sintoma de outros transtornos psiquiátricos.

No Brasil, não existe nenhum estudo de incidência, no entanto observa-se o aumento de forma alarmante, principalmente entre os adolescentes. Um dos fatores que interferem no pouco conhecimento sobre o assunto é o fato de não ser considerado um problema para quem realiza e, sim, uma solução, já que a automutilação traz alívio das sensações negativas/ruins. E isso faz com que a intervenção profissional ocorra de forma tardia e/ou apenas nos casos mais graves.

Qual a diferença entre um portador do problema psíquico da auto mutilação e os jovens que estão se automutilando por causa do jogo Baleia Azul?

Uma pessoa que apresenta automutilação realiza tal comportamento de forma repetitiva, sempre que se depara com emoções negativas e que não sabem lidar, com o intuito de diminuir/aliviar essas sensações desagradáveis.
Já no caso do jogo Baleia Azul, a automutilação ocorre como mais uma meta a ser cumprida. É uma resposta a um comando. Não necessariamente a pessoa continuará a realizar esse comportamento e, principalmente, não sentem alívio ao realizá-los, sentem dor.

Existem causas que estariam relacionadas ao problema da automutilação?

A principal causa da automutilação é a dificuldade em lidar com as emoções e de lidar com situações problemas.
Sendo assim, quanto mais distante os pais estiverem de seus filhos, quanto mais ausentes estiverem na educação, maior a dificuldade dos adolescentes de lidar com as emoções e com as questões relacionadas a um momento tão crucial e tão crítico para o desenvolvimento que é a adolescência e mais difícil para os pais identificarem e intervirem nos pedidos de ajuda dos filhos.

Qual a melhor maneira de lidar com um adolescente que está participando do jogo Baleia Azul?

A melhor maneira de lidar com um adolescente, estando ele participando do jogo Baleia Azul ou não, é estar próximo, acompanhar e perceber as mudanças que demonstram, é valorizar e ouvir o que falam e, quando necessário, pedir ajuda de profissionais da saúde mental.

Além disso, precisamos olhar e tratar os transtornos mentais com a importância e dimensão que possuem, precisamos deixar o preconceito de lado e tratar as emoções, os transtornos mentais, da mesma forma que tratamos as doenças orgânicas e assim, possibilitar o acesso ao tratamento. Caso contrário, o suicídio continuará sendo uma saída, bem como participar de jogos desse tipo.

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