OBJETIVIDADE CIENTÍFICA E SUBJETIVIDADE JUNTAS EM 2020

Dando prosseguimento ao projeto O que 2020 me ensinou? Narrativas para o balanço dos dias, o blog traz aos leitores o artigo do professor universitário e pesquisador Allan Kardec Duailibe. O texto seria uma defesa inarredável da Ciência, da chamada Economia do Conhecimento se não fosse também um primor de conciliação entre o mundo objetivo, racional e a subjetividade. Duailibe considera: “vivemos uma era extraordinária, que é também uma encruzilhada histórica. A pandemia nos obrigou tanto a nos comunicar de forma remota, via computador, quanto a mergulhar nas águas de nosso próprio eu”.

São considerações provocativas que fazem jus à proposta editorial de bulir com temas que transcendem a pauta previsível. “Estamos acostumados a procurar nossa felicidade no mundo lá fora. O que falta na vida íntima das pessoas que as faz terem de ir a shoppings ou lugares lotados de gente, em plena pandemia? Por que precisamos ir a outros lugares para nos sentir realizados? Não se trata, aqui, de defender um mergulho na subjetividade como solução para problemas que são por demais objetivos. Trata-se, sim, de constatar que o economicismo do mundo das mercadorias muitas vezes nos fez negligenciar os fenômenos da subjetividade”, provoca o professor com entusiasmo de cientista e intuição de espiritualista, vertente que o vincula com a editora do blog. Leia, abaixo, o texto na íntegra:

O que 2020 me ensinou (e o que espero na próxima década)

               Allan Kardec Barros*

2020 me consolidou a convicção de que a Ciência é desestabilizadora da História.

2020 foi o ano em que vi passar, em frente aos meus olhos estupefatos, a grandiosidade e a engenhosidade humana.

2020 também evidenciou a precariedade de os seres humanos em lidar com a mente.

De fato, o cenário do mundo pós pandemia aponta para o fortalecimento das chamadas “tecnologias disruptivas”, em detrimento dos produtos derivados de petróleo. Vamos aos fatos. Por exemplo: o preço do petróleo e derivados caiu nos últimos dez anos – e mais agudamente nos últimos meses -, para quase a terça parte de seu valor, ao passo que empresas de informação e ligadas ao conhecimento foram supervalorizadas.

Mais especificamente, em dados: há dez anos, das cinco maiores empresas do mundo, quatro delas eram de petróleo: ExonMobil, PetroChina, Shell e ICBC. Só a Apple estava neste grupo. Essas empresas eram avaliadas, conjuntamente, em um valor médio de US$ 300 Bilhões. Hoje, das cinco maiores empresas do mundo, todas são de informação (Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet e Facebook), com valor médio de US$ 900 Bilhões.

Vivemos uma inequívoca ascensão da economia do conhecimento: a Quarta Revolução Industrial! Esta se constitui na emergência de um conjunto de tecnologias que, combinadas, têm potencial para resultar em grandes transformações em várias esferas da vida e do funcionamento da sociedade. Central nesse cenário é o surgimento da Internet de Quinta Geração. Com a Internet 5G, viveremos a realidade de integração “ciber-física” nunca antes experimentada na história da humanidade. Integração total de imagens, sons e movimentos. Realidade virtual e artificial no dia a dia nosso, como “diálogos” entre veículos ou controles de drones autônomos e tantas outras novidades que só experimentávamos em filmes futuristas. Tudo isso utilizando “constelações” de pequenos satélites, parte dos quais serão lançados de Alcântara, no Maranhão.

A historiadora Lilia Schwarcz afirmou que a pandemia marca o início do século XXI, assim como a Primeira Grande Guerra marcou o início do século XX. A pandemia é um evento traumático único. Em números absolutos, é a maior guerra que o Brasil já ousou lutar. Na Segunda Guerra Mundial morreram 1.500 brasileiros, a maioria militares. Agora, em dados de 21 de dezembro de 2020, já temos mais de 186.000 mortos, quase todos civis. Na Guerra do Paraguai foram 50 mil mortos, mas ela já acabou. A guerra contra o vírus continua.

O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO ALLAN KARDEC BARROS: CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA

Esse evento traumático se materializa na psique coletiva com a presença indelével da morte. Importante lembrar que metade dos pacientes com estresse pós-traumático desenvolve depressão. É previsível então que, além da doença propriamente dita, a pandemia resulte em ansiedade e depressão.

Estamos acostumados a procurar nossa felicidade no “mundo lá fora”. O que falta na vida íntima das pessoas que as faz terem de ir a shoppings ou lugares lotados de gente, em plena pandemia? Por que precisamos ir a outros lugares para nos sentir realizados?

Não se trata, aqui, de defender um “mergulho na subjetividade” como solução para problemas que são por demais objetivos. Trata-se, sim, de constatar que o “economicismo” do mundo das mercadorias muitas vezes nos fez negligenciar os fenômenos da subjetividade. E a Ciência pode contribuir sobremaneira para o entendimento desses fenômenos! Se foi ela que garantiu a diminuição de casos e óbitos por sugerir o isolamento social, o uso de máscaras e o lockdown; se é ela que fornecerá o bálsamo das vacinas, será também dela que poderá vir a solução para nossas dúvidas, ansiedades e angústias.

Este ano de 2020 foi mais um que trabalhei com Sidarta Ribeiro, um dos maiores neurocientistas do mundo. Ele costuma argumentar que a psiquiatria do final do século XX convenceu as pessoas de que, para serem felizes, teriam de tomar antidepressivos. Mas esses medicamentos não trazem a felicidade. O que eles fazem é diminuir bioquimicamente tanto a infelicidade quanto a felicidade. Algo que vem acompanhado de vários efeitos colaterais. Ademais, os estudos científicos sobre antidepressivos são baseados em trabalhos que analisam os efeitos em até oito semanas, apenas.

Por outro lado, há uma classe de remédios que está emergindo e provavelmente revolucionará a Ciência do século XXI. Eles vêm das tradições ameríndias ou orientais. Entre as orientais, estão os resultados extraordinários do ioga e da meditação. Nas tradições ameríndias, destacamos o potencial de plantas como a Cannabis e a Ayahuasca.

A ayahuasca não é uma substância de prazer e não leva à adição ou ao vício. Meu amigo e neurocientista Dráulio Araújo está há mais de uma década estudando seus aspectos neurocientíficos. Ele percebeu que várias pessoas que procuravam os centros religiosos vinculados à planta o faziam porque o vegetal teria trazido algum tipo de benefício para suas vidas. Entre esses benefícios, a cura ou o alívio da dependência de álcool, cocaína ou crack, assim como da depressão ou do estresse pós-traumático.

Já a Cannabis é uma seleção artificial realizada através de centenas de gerações. Essa seleção permitiu chegar a uma variedade de “planta de poder” com muitas aplicações terapêuticas que permitem trazer o corpo para o equilíbrio. Além de ser um poderoso anti-inflamatório e de ter capacidade de dessincronização neuronal, ela tem aplicação terapêutica em muitas doenças diferentes, como Parkinson, Alzheimer ou Epilepsia. Temos estudado, também, como a Cannabis funciona em pacientes com o vírus zika. Os resultados são notáveis!

Acreditamos que a Cannabis está para a Medicina do século XXI como os antibióticos estiveram para a Medicina do século XX. Ela vai revolucionar a medicina! Em um mundo ideal — descontados os preconceitos e os interesses econômicos —, as pessoas poderão, em alguns casos, trocar seis remédios comprados na farmácia por uma planta da qual se pode cuidar em casa.

A par da Ayahuasca e da Cannabis, outra técnica de grande importância é o ioga ou, similarmente, a meditação. A ideia é “navegar” o inconsciente de uma maneira menos dolorosa para o ego. Em vez de buscar a felicidade externamente, fazer o mergulho na própria alma! No zen-budismo, diz-se que todo “zen” que você encontra no alto de uma montanha é o “zen” que você carrega dentro de si mesmo.

A meditação é importante para enfrentarmos estados emocionais em que, recorrentemente, pensamos nas mesmas coisas. Um dos antídotos para isso é trabalhar com técnicas que aumentem nossa capacidade de introspecção.

Modular a introspecção também ajuda em processos patológicos relacionados à ansiedade ou à depressão. De fato, isso aparece no cérebro através de imagens por ressonância magnética. Por exemplo, em técnicas respiratórias do ioga como a pranayama, que reduz estados de ansiedade.

A verdade é que o Oriente mergulhou na alma de forma profunda. Buscou compreender nosso ser: como pensamos, como devemos trabalhar nossas noções de felicidade. Diríamos que a filosofia oriental é monista. Para ela, sujeito e objeto são uma só coisa — concepção sintetizada na célebre figura do círculo com um lado branco e outro preto, o yin e o yang. Já o pensamento ocidental é historicamente dualista. Considera sujeito e objeto em separado.

Vivemos uma era extraordinária, que é também uma encruzilhada histórica. A pandemia nos obrigou tanto a nos comunicar de forma remota, via computador, quanto a mergulhar nas águas de nosso próprio eu. A Ciência, neste momento, lembra o quadro de Eugène Delacroix  “A Liberdade guiando o povo”: a mulher à frente das batalhas segurando a bandeira à frente de seu povo e de seu tempo.

A Ciência pode auxiliar nesse processo de autoconhecimento, mostrando áreas antes impenetráveis de nosso cérebro e sistema nervoso. E, também, ajudando a entender e aprimorar práticas e conhecimentos milenares, que nossos ancestrais já utilizavam e que a modernidade urbano-industrial, inexplicavelmente, optou por dispensar.

*Allan Kardec Duailibe é professor titular da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Maranhão, mestrado em Information Engineering  (Toyohashi University of Technology) e doutorado em Information Engineering pela Universidade de Nagoya (1998). Tem pós-doutorado pelo RIKEN (The Institute of Physics and Chemistry), Japão. Participa do desenvolvimento de projetos de pesquisas em diversas áreas do domínio da energia e engenharia, incluindo PRONEX (Programa de Apoio a Núcleos de Excelência). É consultor da CAPES e de outras agências e já ocupou cargos de pró-reitor, diretor de pesquisa e de diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

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