“O modelo da Petrobrás é danoso à economia. Até a China tem três empresas de petróleo”

Dois cafés da manhã. Combustível suficiente para uma conversa que foi além da pauta, inicialmente prevista para abordar o extraordinário potencial de gás no Maranhão. Allan Kardec Duailibe Barros fala com propriedade sobre fontes de energia não renováveis no Brasil. Foi diretor da poderosa ANP, Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, é professor do departamento de Engenharia Elétrica da UFMA, mestre e doutor em Information Engineering, pela Universidade Toyohashi de Tecnologia e pela Universidade de Nagoya, respectivamente. É pós-doutor pelo RIKEN (The Institute of Physics and Chemistry), instituições do Japão.

A conversa gira em torno de somas estratosféricas: um milhão de dólares a cada 24 horas, em uma plataforma (offshore: no mar) de petróleo, apenas na fase de exploração, mais um milhão de dólares por quilômetro de gasoduto e outras cifras.

O período de vida na terra do sol nascente parece ter lhe proporcionado a serenidade característica dos nipônicos, até mesmo quando faz críticas. Com um livro de Física nas mãos sobre Teoria da Relatividade Geral, ele não poupa críticas ao modelo da gigantesca Petrobras, cujas projeções da consultoria Wood Mackenzie para 2017 apontam para a retomada das exportações de 1 milhão de barris por dia, em escala superior aos 798 mil barris por dia, do ano passado.

“A ação da Petrobras é degradante. Ela não deixa os pequenos crescerem”, critica os tentáculos controladores da segunda maior empresa do setor no mundo, em valor de mercado, perdendo apenas para a norte-americana Exxon Mobil. Ao afirmar que a Petrobras controla do poço ao posto de gasolina, Kardec demonstra que o modelo adotado pela companhia é danoso à economia nacional e cita que até a China possui três empresas de petróleo. Como assessor de internacionalização da UFMA ele tem feito visitas constantes à segunda maior economia do mundo, com intuito de instalar em São Luís o Instituto Confúcio, para ensino de mandarim (idioma chinês) aos maranhenses.

Os episódios recentes na história da política brasileira demonstram que a Petrobras é uma enorme caixa preta, do ponto de vista financeiro?

Eu acho que sim, acho que a Petrobras tem uma organização que, pelo fato de cobrir, do poço de petróleo ao posto de combustível, ela basicamente monopoliza todo o mercado de combustível do Brasil. Então, ela tem uma capacidade gigantesca de controlar esse mercado. Para mim, de fato, é um erro estratégico terrível do Brasil, enquanto Estado brasileiro, não de governo, mas do Estado, você ter uma companhia que toma conta da exploração e produção, do refino, que toma conta da distribuição e que também ter uma empresa especializada em revenda, tanto de gasolina, diesel, de líquidos, quanto de gás de cozinha. Então, eu acredito que esse seja um problema gigantesco e, obviamente, isso ela se torna uma enorme caixa preta.

Esse modelo da Petrobras, ele é danoso à economia nacional?

É um modelo único que não se encontra em nenhuma outra economia do planeta. E você tem que ter modelos ou termos de comparação com outras para poder saber se esse modelo é bom ou ruim. Na minha opinião, ele é claramente danoso, ele é muito ruim. Por exemplo, a China tem três empresas de petróleo. Todas estatais, claro. É um país que trabalha com o controle da economia, com o controle de tudo e tem três empresas de petróleo, a CNOOC, a Sinopec e a CNPC. Na minha opinião, a Petrobras também deveria ter pelo menos uma empresa de exploração de produção, ter uma de refino, outra de distribuição e revenda de combustível. Três empresas, no mínimo, para poder haver independência para negociar, não dentro da caixa preta da Petrobras, mas dentro de regras levem em consideração as regras de mercado e as necessidades do Brasil.

Mas a Petrobras não foi concebido para ser assim?

Sim, mas esse é um modelo de 1950. A China se reinventa a cada dia. A Noruega também. Falta pragmatismo ao Brasil.

A direita brasileira, o antipetismo para ser mais exata, alardeou que com a corrupção houve perdas significativas para Petrobras? Porém, alguns balancetes da companhia Ou não passou de um discurso de direita?

Eu acredito que os dois lados têm de, certa forma, algo a contribuir neste debate. O modelo da Petrobras, que você chamou de “caixa preta”, esse modelo fechado demais, abre espaço para qualquer coisa. Você pode pensar o que bem entender. Mas me causam espécie, de certa forma, algumas coisas. A primeira é que a Petrobras quer controlar tudo, e não quer perder espaço de forma alguma para nada, seja por corporativismo ou por uma visão já caduca do mundo atual. Vamos falar somente da área de produção de Petróleo: tem uma produção de pré-sal, que tem uma produtividade e uma renda altíssimas, na exploração dos campos você tem garantia que vão lhe dar retorno porque a taxa de sucesso é de 90%, enquanto a média dos outros campos é de 10%, e ainda assim dá lucro!

São somas estratosféricas. Como precisar?

O pré-sal brasileiro é uma jazida estimada em 50 bilhões de barris de petróleo e pode ser muito mais! Isso é um poder gigantesco em um país que, até outro dia, não tinha essa produção. Ora, a Petrobras explora não só o pré-sal, mas toma conta também dos outros poços de petróleo, de menor produção, seja em mar ou em terra. Nos Estados Unidos, o pequeno produtor é incentivado, são mais de 30 mil! E esses pequenos fizeram uma revolução que abalou o mercado internacional porque eles resolveram investir na exploração dos gás não convencional. No Brasil, a ANP (Agência Nacional de Petróleo) tem de fazer uma licitação e alguém então vai poder explorar. Mas as pequenas empresas de petróleo do Brasil praticamente foram fechadas, já que a Petrobras é a única compradora. É uma estratégia de gerenciamento e de gestão equivocada. Claro que na corrupção houve perdas. Por outro lado, só na diferença da compra do petróleo para a venda da gasolina houve uma perda gigantesca. Que superam, em muito, as perdas com a corrupção.

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