O MIOLO NOSSO DE CADA BOI

30 de junho é dia de um santo de biografia quase desconhecida e com poucos devotos. São Marçal teria sido parente de Santo Estevão e acompanhou Jesus e os apóstolos, tendo provavelmente sido o menino que trouxe os cinco pães e os dois peixes no milagre da multiplicação dos pães. Lendas e verdades à parte, no Maranhão o santo possui uma legião de fiéis e nem precisa ir devagar porque o andor não é de barro: é feito da madeira forte das matracas, do couro dos pandeirões, dos metais, das  cordas, das miçangas, plumas e de variados materiais que compõem a riqueza visual e a diversidade rítmica do Bumba meu boi maranhense.

É dia de São Marçal, data marcada pela tradição do Encontro dos Batalhões de Boi, no bairro do João Paulo, que costuma ter início desde as 6 horas da manhã, indo até a madrugada do dia 1° de julho. O espetáculo a céu aberto costuma reunir, durante o dia inteiro, cerca de 300 mil pessoas com todos os grupos de Bumba boi da capital, além de alguns do interior. Uma das versões para o surgimento da festa teria sido a proibição aos grupos de Boi de seguirem para a área do centro da cidade, para manter a segurança, ordem e tranquilidade, época de discriminação contra a cultura popular.

“O MIOLO É A ALMA DO BOI” NA DEFINIÇÃO POÉTICA DE CELSO BORGES E CÉSAR NASCIMENTO

Nesta quarta-feira de pandemia, a grande orquestra popular silencia. Ao santo que teria trazido pães e peixes para o milagre cristão, o blog oferece o clip da toada Miolo. Composta em maio/junho de 2021, a toada vai virar hino do Encontro de Miolos de Boi do Maranhão, que acontece em julho no centro de São Luís, desde 2006, e está chegando em sua 16ª edição este ano. O Encontro de Miolos marca o encerramento do período junino na capital.

De autoria de César Nascimento e Celso Borges, o clip leva as assinaturas de Alex Soares, na edição; imagens de Beto Matuck e Murilo Santos; fotografias de Márcio Vasconcelos e Fábio Carioca. A interpretação é de César Nascimento, que também toca percussão, e backing vocal de Renata Gaspar e Ikaro. Miolo é uma homenagem dos dois compositores a um personagem muito importante dentro do Bumba Meu Boi, que brinca debaixo de uma carcaça ou armação de boi denominada capoeira. Sem esse personagem, que balança, ginga e baila, a brincadeira não existiria nos terreiros e arraiais. Nestes tempos de fome e sede de comida e justiça provocados por tanta gente desmiolada, a obra é um banquete. Bom apetite!

MIOLO

(César Nascimento e Celso Borges)

Oi se tu quando chega no terreiro
Dá de cara com o vaqueiro  
Dançando na frente do boi  
Saiba que ali tem miolo
E se tem miolo tem boi

O miolo é alma do boi
O miolo é a vida do boi
O miolo é a cara do boi
O miolo é o corpo do boi
O miolo é o baile do boi
O miolo é o silêncio do boi

Não precisa abrir o berreiro
Quando brinca parece um guerreiro
Gingando de dentro do boi
Saiba que ali tem miolo
E se tem miolo tem boi

O miolo é alma do boi
O miolo é a vida do boi
O miolo é a cara do boi
O miolo é o corpo do boi
O miolo é o baile do boi
O miolo é o silêncio do boi

Olhali, lá vem ele brejeiro
Como um raio surgindo certeiro
Bailando de dentro do boi
Saiba que ali tem miolo
E se tem miolo tem boi

O miolo é alma do boi
O miolo é a vida do boi
O miolo é a cara do boi
O miolo é o corpo do boi
O miolo é o baile do boi
O miolo é o silêncio do boi

Quando pula todo matreiro
ilumina que nem fogareiro
Acendendo os olhos do boi
Saiba que ali tem miolo
E se tem miolo tem boi

O miolo é alma do boi
O miolo é a vida do boi
O miolo é a cara do boi
O miolo é o corpo do boi
O miolo é o baile do boi
O miolo é o silêncio do boi

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