O Carnaval tipo C

Este seria o carnaval da “rabeta”, termo que nos últimos anos (com “o”, conforme preconiza a regra gramatical em vigor) sofreu uma mutação semântica, a exemplo de tantos outros que carnavalizam nosso léxico pátrio com adereços variados. Nunca se viu tantas “rabas” ou “rabetas” em letras de músicas que incitam o balançar da preferência nacional. De Anitta – diva pop em rota de cruzeiro para a carreira internacional, capa da revista Exame neste início de ano – ao cantor Léo Santana, artista que mais apareceu nas transmissões ao vivo e noticiários dos jornais durante o Carnaval, segundo pesquisa de mídia. Todos engrossam o coro de convocação geral para colocar a rabeta no chão.

Mas como o buraco é mais embaixo, a grande vedete da folia momesca de 2019 foi aquela abertura exterior do tubo digestivo, na extremidade do reto, pela qual se expelem os excrementos, tecnicamente denominada de ânus e vulgarmente conhecida por uma variedade incontável de sinônimos: fiofó, anel de couro, rosca, rabo, redondo, buraco do tatu e tantos outros.

Tensão anal – Explica-se: primeiro foi o coro que tomou conta das multidões carnavalescas pelo país afora, ecoando a frase: “Ei, Bolsonaro vai tomar no cu!”. Embora o protesto não seja original, pois na Copa de 2014 a presidente Dilma Rousseff também foi citada em pleno estádio de futebol, com igual sugestão, o presidente da República parece não ter reagido com a mesma lubrificação. Em seguida, dias depois, Jair Bolsonaro desceu do mais alto posto do Executivo, da condição de máxima autoridade da nação, para protagonizar um ato tão mignon quanto inédito na República brasileira, a ser registrado nos anais (!) da história.

Na última terça-feira (5), Bolsonaro compartilhou em seu perfil no Twitter o vídeo de um homem que introduz o dedo no ânus e, em seguida, aparece dançando em um posto de táxi. Com certa tensão anal, o presidente comenta: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões”.

Como era de se esperar, os comentários e memes já se multiplicam no ambiente libertino das redes sociais. O capitão reformado do Exército está sendo chamado de “fiscal de cu” e “excrementíssimo”, nas mais benevolentes das opiniões. Bolsonaro falou merda, já que o assunto é o orifício excretor da dita cuja. Comporta-se de modo apequenado, com postura distante da esperada aos homens públicos ou pretensamente estadistas. Uma vizinha fuxiqueira se preocuparia menos com o cu alheio. A fala do presidente é reveladora, do ponto de vista psicanalítico. Há elementos da falta, do falo, do objeto de angústia e outros. E muito mais a ser interpretado. Porém, mesmo mergulhado em uma bosta destas, o povo brasileiro reage. Dandaras, Marielles, Mahins, Malês vivem!

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