O Brasil do BBB

A maranhense Sônia Guajajara, liderança indígena da Coordenação Executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), declarou estar impressionada com a “mobilização” no Big Brother Brasil, que vem batendo recordes de audiência nesta 21a edição. Somente na última terça-feira (23), o reality show alcançou o maior número de telespectadores em uma década, com a eliminação da cantora e rapper Karol Conka com 99,17% dos votos, ou seja: 285 milhões de votos.

Guajajara trouxe uma reflexão com força de flechada. “É como se estivéssemos num país da igualdade e do respeito onde todos os problemas do Brasil se resolvem com a saída de uma integrante de um Reality show”, opinou. E sugeriu: “vamos usar essa força em prol de nossos Direitos humanos e ambientais!??”

MOBILIZAÇÃO NACIONAL PEDIU A ELIMINAÇÃO DA CANTORA KAROL CONKA NO REALITY SHOW

Menos do que repúdio por parte da intelectualidade brasileira, a audiência do programa merece análises de toda espécie, em diferentes campos do conhecimento, das ciências comportamentais aos estudos que abordam massificação dos meios, entre outros. Um programa que consegue a atenção de parte significativa da sociedade brasileira, em torno de uma casa habitada por brothers, traz pistas importantes relacionadas à cultura do ódio, à pseudo militância que se apropria das causas legítimas de determinados segmentos, com exibição rasa, superficial de seus supostos “lugares de fala”.

CHARGE DO PARAENSE WALDEZ: TRADUÇÃO DO FENÔMENO DE AUDIÊNCIA NO PAÍS

O BBB traz estatísticas reveladoras. Os 285 milhões de votos pela eliminação da cantora Karol Conka são um número inferior aos 115 milhões, 933 mil e 451 votos de brasileiros que compareceram às urnas, em 2018, para votar para Presidente da República. E sugere muito a ser debatido – além do formato do programa, mas no que tange às dificuldades que as esquerdas têm em construir um projeto/programa que desperte a mobilização citada por Sônia Guajajara em defesa de todos os legítimos direitos assegurados pela nação.

A comunicação – e não a cooptação – continua sendo um caminho eficaz. Não é à toa que siglas de esquerda já admitiram desvantagens para a direita e propuseram “reforçar comunicação”, a exemplo do PT. O debate é mais profundo. Mas começar a entender certos fenômenos, não apenas de massa, mas de mobilização social é um começo.

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