O ano da rebordosa política

A política brasileira viveu um dos anos mais patéticos desde que uma diarreia em Dom Pedro I apressou a Independência do Brasil. 2017 deixou um saldo negativo para os homens públicos do país, que deverá repercutir, fortemente, nas eleições deste ano. Será a primeira eleição após uma sucessão de episódios que se iniciaram desde o impeachment de uma presidente da nação – com a exposição pública em audiência que subiu em média 25% nas TVs abertas, escancarando a eloquência duvidosa de muitos parlamentares e seus discursos que misturavam uma espécie de estilo Xuxa, com beijinhos para os familiares e apologias a criminosos como fez Jair Bolsonaro ao dedicar seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI, responsável por torturas durante a Ditadura Militar.

Mudança estrutural na Esfera Pública – Bem antes de João Dória, Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, a história da política nacional está repleta de fatos ridículos, tão bem contados por escritores e/ou jornalistas como Joel Silveira, merecidamente chamado de “o maior repórter brasileiro”. O problema é a tal midiatização da sociedade, fenômeno já amplamente analisado por teóricos da Comunicação. Não por acaso, vivemos na Sociedade em Rede, assim conceituada por um cara brilhante chamado Manuel Castells. São os tempos apressados da Hiperinformação. Todas estas transformações trouxeram impactos relevantes na esfera pública. Eleitores que, em tese seriam meros espectadores das decisões de seus representantes, passaram à condição de julgadores em tempo real. O antigo modelo de comunicação ficou caduco e foi profundamente alterado: os receptores passivos de mensagens de outrora agora são emissores ativos, ativistas digitais, que interagem, protestam e cobram.

As características culturais do povo brasileiro acentuam ainda mais a ressignificação dos conteúdos do noticiário. Qualquer um que cometa uma gafe ou deslize ético é imediatamente vítima de linchamento virtual. Ao chegar ao conhecimento público, um fato vira meme em poucos segundos. Consultores de imagem ampliam seus horizontes nas áreas de Gerenciamento de Crise e de Reputação, capital cada vez mais valorizado com a Gestão dos Ativos Intangíveis, a imagem e os itens na folha corrida de um político.

Diante desse cenário, não por acaso o presidente Michel Temer tem sido alvo fácil de petardos, com sua popularidade patinando em índices rasteiros. Além do pacote de medidas com evidente desfalque aos direitos assegurados pela Constituição Federal, Temer comunica-se com a população de forma rudimentar e frágil. “Colocar o país nos trilhos” tem sido a expressão mais moderna utilizada em seus discursos.

No Maranhão, a crise para a classe política apenas se agravou após a votação das reformas. Impressiona como um deputado com a reputação de Weverton Rocha (PDT-MA) aparece como um herói na mídia alugada local, sendo o candidato a Senador mais afagado pelo Governo do Estado. Há nomes no quartel comunista com trajetória bem mais palatával, a exemplo de Rubens Júnior, vice líder do PCdoB na Câmara Federal.

2018 não será um ano fácil. É preciso superar o trauma dos 7 a 1 sofrido na derrota contra a Alemanha. E mostrar ao mundo que não somos a nação da esculhambação.

2 comments

  1. Essa reconfiguração da esfera pública promete fazer de 2018 um ano de salto e sobressaltos, em que entre a praça (o palanque) e a plateia (o eleitorado), novas formas de sociabilidade vão se impor inexoravelmente. Temo que os fakes news se tornem os grandes protagonistas da cena, a desafiar os já falidos órgãos de controle. Mas e a sociedade, como se defende? Eis a questão que nos ronda e desafia, pedindo venia para tanto desafia na mesma frase. O velho Otto condenaria, com toda certeza.

  2. Só a secessão e democracia direta, com cultura plebiscitária e para cada povo submetido a esse sempre criminoso Estado brasileiro (que cientificamente não é, nunca foi e nunca será numa nação, como o autor do texto acima afirma) é que pode ajudar a todos os honestos.
    O resto, no âmbito da reforma política, é mentira e enrolação.

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