Notícia não tem pernas curtas

O bordão acima é uma evidente provocação que remete à seguinte questão: o jornalismo vive momentos difíceis. O limite cada vez mais esgarçado entre opinião/boato/informação e a já devidamente catalogada pós-verdade são alguns dos problemas que debilitam o compromisso fundamental do ofício. O debate ultrapassa temas antes predominantes nas academias e nos movimentos pela democratização da comunicação. O monopólio dos meios parece ter perdido força com o atual protagonismo do antigo público-alvo – os receptores, leitores ou telespectadores, que agora geram seus próprios conteúdos, influenciam o noticiário e interagem, empoderados pelas possibilidades da internet.

A pós-verdade, segundo registra o Dicionário de Oxford, “denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. A era da onipresença da informação tornou-se também uma preocupante era de extremismos. É óbvio que se posicionar no extremo de algo dificulta a visão sobre o lado oposto. O fato é que a verdade, com sua dimensão filosófica, é um impositivo ético para o jornalista. E agora, José?

Buliçoso surge no meio desse rebuliço. Trata-se de um projeto editorial que nasceu arreliado, inquieto diante da abordagem reducionista em certo modo de noticiar, praticado em larga escala pelos cada vez menos jornalistas e mais fabricantes de opinião. Em condição inversa à mentira, vilã do bom jornalismo, a notícia não tem pernas curtas. Muito pelo contrário: por trás de cada manchete ou postagem existe uma infinidade de questões ocultas ou negligenciadas pela comunicação industrial, pela opinião hoje mercantilizada e transformada em moeda política – prática largamente utilizada para a compra de consciências lesadas pela falta de educação, saúde, saneamento básico e outros direitos e garantias fundamentais.

Quando defendemos que notícia não tem pernas curtas consideramos a enorme variedade de questões e subtemas ocultos em cada matéria jornalística sobre homicídios, chacinas, surtos de doenças, catástrofes e outros, inclusos nos pacotes de problemas da atualidade. Interpretar, checar e ir muito além dos fatos. E atiçar pelo viés da cultura e da arte, por quê não? É esse o nosso desafio, a propósito do nome Buliçoso. Afinal, quem fica parado não é post! Sejam bem-vindos!

Flávia Regina Melo

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