NO JARDIM DE INFÂNCIA

A tarefa de subjetivar fatos, dando-lhes uma interpretação a partir do viés pessoal foi o desafio proposto por Buliçoso ao jornalista e escritor Emílio Azevedo, que expôs dúvidas, medo e a confissão: “não sei o que aprendi a partir da pandemia. Ou se aprendi alguma coisa”. Mantenho com Emílio uma relação de amizade que remonta aos tempos da adolescência, mas sobretudo, de admiração, raiz de toda relação forte. Estudamos no mesmo colégio e hoje estamos juntos no mesmo projeto de comunicação popular, a Agência Tambor.

Mais do que um jornalista independente em um estado que, por décadas ainda permanece sob as esporas de cifrão do coronelismo eletrônico, meu parceiro de sonhos e utopias ostenta a liberdade de escrever e falar sem mordaça e sem estar preso a alguma espécie de interesse que não seja público ou diferente das causas nas quais ele acredita.  O BG para a narrativa que segue foi escolhido no texto e traz a suave nostalgia juvenil dos tempos de Legião Urbana. “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena/Acreditar no sonho que se tem/Ou que seus planos nunca vão dar certo… Mas é claro que o sol vai voltar amanhã…” . Leia Emílio Azevedo!

NO JARDIM DE INFÂNCIA

Emílio Azevedo*

Minha amiga Flávia Regina  pediu para que  escrevesse sobre o que aprendi em 2020.

Aprender é sempre bom, necessário.  Mas confesso que não sei o que aprendi a partir da pandemia. Ou se aprendi alguma coisa.

Na verdade, não me sentiria  naturalmente  estimulado a tal balanço.

Mas escrevo para atender ao pedido/provocação de Flávia, que pra mim é especial.  Além disso, o Buliçoso é importante.

O ano de 2020 trouxe inicialmente o medo. E trouxe numa proporção  nunca antes sentindo. 

Diante das mortes, de uma ameaça permanente e generalizada, da ansiedade, da vulnerabilidade, da insegurança, da tragédia, da dor de tantos, do pânico, restou buscar (onde fosse possível) forças e apoio para enfrentar a nova realidade.

Num segundo momento, quando o país optou por flexibilizar e o medo (o meu) estava controlado, a pandemia me trouxe   perplexidade.

Fiquei e ainda fico impressionado com o descaso permanente e evidente diante de uma ameaça que segue presente e que já matou tantas pessoas pelo mundo a fora.

Milhares de pessoas se comportam como se o problema não existisse ou tivesse deixado de existir.

Fico a pensar sobre a origem de tamanho descaso. E aí falo especificamente do Brasil. É um descaso que não escolhe classe, idade ou formação.

É certo que diante da pandemia, o atual presidente do nosso país se superou em matéria de ignorância, insensibilidade, perversidade,  violência, estupidez.

Mas a Besta, por si só, não explica o descaso de tantos.  Tem gente que não vota no atual presidente e mesmo assim negligência as ameaças provocadas pela disseminação do Coronavírus.

Talvez as razões  que produzam o descaso expliquem em parte as razões que nos levaram  a ter isso como presidente.

Por último, depois de um ano onde alguns seguem fazendo coro  com os que dizem que   “a terra é plana”, em meio as  luzes artificiais de Natal, tem gente mobilizada para questionar a necessidade urgente e evidente de vacinas.

Perto da minha casa, no bairro do São Francisco, em São Luís, eu vivi pra ouvi ontem  (22/12/20), pessoas acompanhadas de um carro de som, dizendo que “não querem ser cobaias para vacina” de Covid 19.

O que dizer? Qual o aprendizado, Flávia?

EMÍLIO AZEVEDO E A EDITORA DO BLOG, FLÁVIA REGINA: PARCEIROS NA AGÊNCIA TAMBOR

Pessoalmente, talvez pude me conhecer um pouco melhor, valorizar mais detalhes aparentemente irrelevantes do cotidiano, a (com) vivência, pensar no amor.

E talvez, nós todos, diante do ambiente  em que se enxerga a olho nu o obscurantismo, estamos podendo  conhecer melhor essa sociedade brutal em que nascemos, vivemos e precisamos melhorar.

E encerro, Flávia, lembrando e deixando pra ti um beijo e uma música (do tempo em que estávamos juntos no Colégio Batista) chamada “Mais uma vez”, de autoria de Flávio Venturini e Renato Russo.

Essa música começa dizendo que é evidente que o sol vai voltar amanhã.

Isso nós já aprendemos.

* Emílio Azevedo é jornalista, escritor, fundador do jornal Vias de Fato e do coletivo de comunicação Agência Tambor

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