MORRO NO BRASIL NÃO PODE CONTINUAR A SER VERBO

Entre exibições patéticas e cínicas, o presidente da República do Brasil tem atraído holofotes internacionais pela desenvoltura descabida diante da maior crise global desta contemporaneidade. Na data de hoje, 10 de maio de 2020, mais de dez mil brasileiros já foram a óbito, após contaminação pelo coronavírus, solenemente ignorado pelo representante de mais de 200 milhões de habitantes.

Do depoimento inicial que a doença letal era apenas uma “gripezinha”, às exibições públicas de uso indevido de máscara de proteção e participações em aglomerações, ao arrepio da Constituição Federal e de marcha à ré na história do país, Jair Bolsonaro tem sido citado na imprensa do mundo inteiro e até em reconhecidas publicações científicas pela leviandade sem precedentes no planeta. Para completar o tour pela pandemia, Bolsonaro aproveitou este final de semana para andar de jet ski pelo Lago Paranoá, em Brasília.

O país dos estádios de futebol lotados, do maior espetáculo festivo do mundo, o carnaval, das multidões institucionalizadas sofre, quiçá, emocionalmente mais do que os contidos europeus. Favelados, celebridades, pessoas de periferias, comunidades artísticas, endinheirados e auxiliados emergencialmente pela miserinha de 600 reais: todos, independente de cor, raça, orientação sexual ou conta bancária estão na linha de tiro da Terceira Guerra Mundial do Covid-19.

Apesar da metralhadora giratória, implacável em muitos organismos, o vírus evidenciou as piores doenças sociais do Brasil, expondo a vulnerabilidade de milhões de brasileiros: os que vivem nas 6.329  favelas de 323 municípios brasileiros, segundo o último Censo do IBGE (2014). Na época, Belém era a capital com maior proporção de favelados, com 54,5%, seguida de Salvador (33%) e a nossa nobilíssima São Luís, com 23%, ao lado de metrópoles como Recife  e São Paulo.

Mais estarrecedor do que um presidente que tosse no meio de uma multidão, pulverizando a contaminação, que desdenha de mais de 10 mil mortes, priorizando a “vida” de CNPJotas é a constatação de que, no Brasil, até o tráfico toma medidas protetivas contra o avanço da enfermidade. Chefões de tráfico, de alto escalão no comando do Estado paralelo, revelam-se menos levianos do que o chefe do Executivo. O documentário abaixo comprova a tese:

O vídeo foi produzido pela Redfish Media, organização de jornalistas independentes que disponibiliza conteúdos para mais de 1200 clientes, em 89 países, assumidamente sem neutralidade, com histórico comprovado de apoio e cobertura nas lutas que, segundo eles, “desafiam o sistema global explorador que escraviza a humanidade e está destruindo nosso planeta”. “Somos a favor de pessoas que se encarregam de seus próprios destinos, contra guerras econômicas e militares e contra o racismo. Acreditamos na igualdade para todos – independentemente de sexo, sexualidade, gama de habilidades, idade e religião”, definem.

A produção merece registro para que a história no futuro avalie a gravidade do momento atual.

Arte/ilustração: Marcelo Paixão

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