MARANHÃO SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEL

A aproximação do período carnavalesco traz de volta as campanhas de uso da camisinha com piadinhas e apelos publicitários de pouco resultado prático, distantes da realidade de quem contrai uma doença grave. No Maranhão, dados alarmantes relacionados à falta de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis figuram até em rankings internacionais. Diante de indicadores tão elevados, a proposta da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de abstinência sexual como método contraceptivo, soa como “chover no molhado”.

O estado é líder mundial em casos de câncer de pênis por cada 100 mil habitantes. São aproximadamente 8 a 10 amputações por mês, tema de uma artigo científico na revista internacional BMC Urology. A doença atinge com mais frequência jovens de baixa renda, sem condições de buscarem tratamento ou receberem acompanhamento. A baixa escolaridade, predominante, e o maior percentual do país de população vivendo na zona rural, em condições de pobreza, agravam ainda mais o alcance das políticas de saúde.

CENTRO HISTÓRICO DE SÃO LUÍS: POUSADAS SOBREVIVEM DO COMÉRCIO DE SEXO BARATO E OCASIONAL

Em 2018, dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostraram que o Maranhão ocupava o primeiro lugar no ranking da taxa de mortalidade por Aids, sendo 5,5% mortes por 100 mil habitantes. Ano passado, o estado foi o 40.  com maior taxa de detecção de casos de AIDs no Brasil, atrás do Rio Grande do Norte, Tocantins e Amapá. São Luís ocupa o posto de primeira capital nordestina e a terceira do Brasil no ranking de maiores taxas de detecção de HIV em gestantes, segundo um levantamento do Boletim Epidemiológico de HIV/Aids divulgados pelo Ministério da Saúde. A capital maranhense está acima da média nacional de 2,9 casos para cada mil pessoas. Em todo o Brasil, o número de gestantes com HIV cresceu desde 2008. No ranking nordestino, Maceió (AL) aparece como a segunda capital com mais casos: 4,9 a cada 1.000 nascidos vivos, seguida de Recife (PE) com 4,7 e Aracajú (SE) com 3,6. Por aqui, ainda prevalece nas zonas de prostituição mais precárias, um valor tabelado mais alto para o sexo sem camisinha. Em reportagem na região do “Xirizal do Oscar Frota”, Centro de São Luís, obtivemos depoimento de mulheres que, mesmo grávidas, precisam se prostituir para sobreviver.

NO FAMOSO “XIRIZAL DO OSCAR FROTA”, A PRESENÇA DE MULHERES NA PROSTITUIÇÃO MESMO GRÁVIDAS

Sem proteção – Em entrevista à rádio web Tambor (agenciatambor,net.br) , Fernando Cardoso, membro da coordenação colegiada do Fórum de AIDS (articulação Estadual de Luta Contra Aids) e representante da região Nordeste da Articulação Nacional de Luta Contra Aids, atribui o primeiro lugar no ranking à grande oferta do teste rápido colocado em várias unidades de saúde em São Luís. Cardoso denuncia que, apesar disto, muitos municípios maranhenses não estão atuando como deveriam na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Segundo ele, existem apenas 33 cidades maranhenses com programas municipais de DST-AIDs. “Há uma falha muito grande nos municípios”, ele opina, exemplificado que o município de Bacabal possui precariedade na prevenção da doença.

Um outro problema é a assistência médica a pacientes de baixa renda que chegam do interior do estado para serem tratados. Só existe uma única casa de apoio da capital aos soropositivos, que fica no bairro da Fé em Deus, na Rua São Gabriel. Por trás dos dados que apontam São Luís como a capital no Nordeste com maior número de mulheres grávidas infectadas com o vírus HIV existe outra informação. “O índice de mulheres sem fazer pré-natal é altíssimo”, explica Fernando Cardoso. Sexo sem proteção, maternidade sem pré-natal. Uma epidemia maranhense de proporções assustadoras.

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