Maranhão na merda

Ano de 2009. João Castelo era prefeito de São Luís e Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da República. A ocasião celebrava 18 milhões de reais em convênios para saneamento básico, drenagens, canalizações, pavimentações. Exalando popularidade, Lula expele a frase, fiel ao estilo com apelo popularesco: “Eu não quero saber se o João Castelo é do PSDB, não quero saber se o outro é do PFL, não quero saber se é do PT, eu quero saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda”.

Quase 10 anos depois, os dados do Sistema Nacional de Informações confirmam que, entre 100 cidades brasileiras, São Luís ocupa a 79a. posição de no ranking de Saneamento (SNIS). Apenas 12,1%, dos maranhenses têm acesso à coleta de esgoto. O Maranhão só fica à frente de estados como Pará, Acre, Rondônia e Amapá. Em relação à água, o Maranhão sobe uma posição e fica à frente do Piauí.

As porcarias têm atravessado décadas, sem que o poder público solte, em genuína expressão maranhense, um “peido cheiroso”. No final da década de 60, o então candidato a prefeito da capital maranhense, Epitácio Cafeteira, dizia em seus comícios que São Luís “era uma ilha cercada de bosta por todos os lados”. Prometeu e nunca cumpriu. A merda é um problema histórico. Há pelo menos 200 anos, a capital do Maranhão ostenta o símbolo de um passado que permanece entalado no presente: o Beco da Bosta, monumento à ausência de políticas públicas que, longe de incluir socialmente as pessoas ao acesso à rede básica de serviços, utilizava a mão de obra escrava para carregar em vasilhas os dejetos de seus proprietários e jogá-los na maré. Na obra Maré Memória, publicada na década de 70, o poeta José Chagas denunciava a vida de quem habitava as palafitas de São Luís: “…com sua boca maldita que engole a maré mais alta, mas não traga a palafita, que fora do tempo salta…”

A São Luís do século XXI é uma dama no cabaré de problemas: péssima mobilidade urbana, plano diretor nunca atualizado, iluminação deficiente e outros que fazem parte da rotina de quem mora fora da área nobre – com suas plantinhas, canteiros floridos e largas avenidas do Calhau à Ponta d’areia (a “Península”, batizada pelos corretores de imóveis para impressionar os mais deslumbrados). A cada eleição, assiste-se à mesma diarreia verbal dos candidatos. Nem a mínima oferta de serviços básicos, menos ainda a elaboração de projetos urbanísticos criativos, que levem em consideração a cidade como um ecossistema, na definição precisa do economista polonês Ignacy Sachs e, humana por excelência, segundo a compreensão aguda do antropólogo Claude Lévi-Strauss

Muito pelo contrário. Há décadas, nas eleições municipais, o povo engole a lorota e troca voto por asfalto.

Texto: Flávia Regina Melo

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