Um gênio da ironia

Existem evidências de que Machado de Assis, ao publicar O Alienista, por volta de 1882, possuía conhecimentos de sátira, menipéia e do diálogo socrático – gêneros pertencentes à carnavalização da Literatura.  Há constantes alusões, feitas em suas obras sobre escritores que cultivavam esta forma de escrita.

No conto machadiano, há referências a Cícero, Apuleio, Tertuliano e Sócrates. Cícero foi criador do gênero logistóricus, mitura de histórias fantásticas com o diálogo socrático. Apuleio foi autor de O Asno de Ouro, uma sátira menipeia. E Sócrates, com seus diálogos, concebeu a natureza dialógica da verdade. Tais referências não vêm ao acaso. No caso de Cícero, Apuleio e Tertuliano, é visível a intenção irônica do autor em relação à cultura clássica, decadentes de uma época, cujos preceitos exigiam a leitura dos autores latinos e gregos da Antiguidade. Sócrates surge em O Alienista, quando Simão Bacamarte expõe sua nova teoria sobre a loucura: “A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades. Fora daí, insânia e só insânia”. O médico, como se sabe, recolhe à casa de saúde quase toda a população da cidade e, ao menor sinal de comportamento estranho, o indivíduo era recolhido ao local, considerado louco.

Toda essa experimentação, as constantes mudanças de ponto de vista em busca da verdade, que se traduzem pela atitude da personagem, caracterizam, sem dúvida, o discurso do autor com fundo dialógico. É sabido que Machado de Assis foi um escritor profundamente voltado para os problemas existenciais. Em toda a sua obra, ele revela uma preocupação constante em conhecer e compreender o comportamento humano, penetrar no espírito e desvendar os mistérios da alma. Talvez, por essa razão, o tema da loucura esteja presente nas suas principais produções, pois esse tema serve bem aos propósitos. Em sua narrativa, nunca a loucura assume limites definidos em relação à sanidade. Pelo contrário, com ela se confunde, assumindo uma relatividade, que tudo indica, na sua concepção, representa os diferentes estados de espíritos do indivíduo em face das circunstâncias diversas, ou ainda, vista de outro lado é uma questão de perspectiva. O assunto é sempre tratado com a concepção da natureza dialógica da verdade.

O Alienista não foge à regra, ainda que desta feita, a loucura assume também outra função. A maneira como é encarada pela Medicina de Simão Bacamarte, na base da experimentação, do empirismo, traduz a própria postura do autor em relação à ciência. É uma sátira aos postulados acadêmicos mal embasados, mas que se têm como absolutamente verdadeiros.

O professor José Carlos Garbuglio, da Universidade de São Paulo, trata esta questão da seguinte maneira: “…para colocar o problema em termos atuais, basta ver o que ocorre com certos defensores e aplicadores, mal informados da Psicanálise, transformada em abra-te sésamo de todos os problemas humanos”.

 Mas a ciência não é o único tema da sátira no conto. Valendo-se, com absoluta propriedade, de elementos linguísticos, do aspecto temático composicional, ele satiriza tudo: a retórica empolada, a sociedade , o poder, a religião, uma verdadeira cosmovisão carnavalesca (teoria da carnavalização)

Texto: Alexandre Botão

 

 

 

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