“A história da formiga e da cigarra é de uma escrotidão absoluta. É a negação do sonho, da arte, da solidariedade”

A entrevista com o jornalista Emílio Azevedo seria sobre o contexto atual da comunicação no Maranhão. As declarações contundentes, para destacar no título, renderiam muitos acessos ao BULIÇOSO, uma cacetada de inimigos e recados ameaçadores pelos blogs de aluguel. Mas o fundador do jornal Vias de Fato é um transgressor, na melhor acepção da palavra. Emílio transgride a pauta e conversa sobre utopia, sobre generosidade, “fome de amor” e até mesmo sobrevivência em um mercado no auge da crise imposta pelas transformações tecnológicas. Ele lembra, com emoção, do pai (cronista genial, romancista, criador de espetáculos teatrais e membro da Academia Maranhense de Letras, Américo Azevedo Neto) que dizia, em sua infância: “a vida é bem mais do que um carro novo e uma casa bonita” e me explica, mesmo sem saber, aquela lei de afinidade que agrupa todos os seres da criação. Somos da mesma geração. Estudamos no mesmo colégio e, com 15, 16 anos, Emílio já detestava a disciplina de Inglês, os gringos e o Imperialismo. De forma clandestina, eu era sua fornecedora nas provas e, às vezes, fazíamos algumas “permutas epistemológicas”.

Autor de três livros: Havana, dezembro de 1999; O caso do Convento das Mercês e Uma subversiva no fio da história (sobre a médica e líder popular Maria Aragão), Emílio Azevedo é um tapa na cara dos esquerdistas de ocasião. E um abraço fraterno nos ideais que foram pisoteados por uma época de extremismos, ódio, preconceitos e imbecilização financeira. Esta é uma entrevista “por sonhos menos mesquinhos”, expressão que tomo emprestada do próprio entrevistado.

As prisões (que não foram prisões) de blogueiros evidenciaram parte de como funciona o mercado clandestino da comunicação do Maranhão. Houve até crucificação na praça pública de alguns jornais impressos. Mas onde há demanda, existe oferta. Qual tua avaliação desse fato mal contado?

As acusações da PF são fortes, fala em uma “organização criminosa”. Mas, no que se refere especificamente à comunicação no Maranhão, divido a opinião com aqueles que acham que os blogs não são o centro da questão, nem a origem. Eles podem realmente ser um problema sério em relação à ética no jornalismo local. Mas temos problemas bem maiores nessa seara. A corrupção é antiga, bem anterior à internet. Vamos voltar só um pouquinho no tempo e lembrar de Assis Chateaubriand, que foi durante um bom tempo, o maior empresário de comunicação do país, dono de emissoras de TV, jornais, rádios e revistas. Chateaubriand era conhecidíssimo pelo uso da chantagem. Não por coincidência, foi senador pelo Maranhão, eleito aqui com fraude eleitoral. Ele era da Paraíba e vivia em São Paulo, mas pela facilidade de conquistar um mandato por meio de corrupção, se elegeu pelo Maranhão. Isso foi em 1954, nos tempos de Vitorino Freire.

O que veio depois de Vitorino talvez tenha sido pior. Com Sarney surgiram os coronéis da mídia local, com uma parte significativa dos grandes veículos de comunicação do Maranhão sendo montadas com dinheiro público, num processo de corrupção evidente. Na década de 1970, criou-se a Secretaria de Comunicação do Estado. Ao longo do tempo, a relação dessa secretaria com alguns veículos tornou-se espúria. Nesse caso, esse já é um problema histórico, onde o que tem origem no do oficial tem sido mais danoso que o clandestino.

Até um tempo atrás, no Maranhão predominava uma concentração, sem precedentes em outro estado brasileiro, de meios de comunicação nas mãos de políticos. Hoje, até mesmo os adversários do grupo Sarney resolveram rezar na mesma cartilha. Há um caso até de suposto arrendamento ilegal de TV. Sarney estava certo então? A comunicação é parte do esquema de qualquer que seja o projeto de poder, de esquerda ou direita?

Quando Sarney diz isso é para querer justificar o injustificável, o escândalo do qual ele faz parte, que é a imensa concentração dos meios de comunicação que existe no Brasil e, particularmente, no Maranhão, que é a maior do país. Quanto à cartilha em que cada um reza, só teremos alguma diferença no dia em que houver um projeto político de poder realmente identificado com um campo popular, que nos conduza a um caminho de democratização da mídia, com a ampliação do poder da sociedade, estimulando a pluralidade. Isso não está na agenda atual. Deixar o poder concentrado nas mãos dos empresários ou de políticos carreiristas, vai sempre consolidar um modelo conservador, mudando apenas os nomes.

Democratizar a mídia é alterar a correlação de forças na sociedade, é ter a coragem de mexer nos privilégios da mídia empresarial e oligárquica. No caso das TVs, elas são concessões públicas e têm boa parte do seu financiamento cotidiano feito através de recursos públicos. E tudo isso para atender ao interesse privado, ao interesse dos próprios empresários e de grupos políticos. É uma total inversão de valores.

Quanto ao arrendamento que você se refere, um negócio entre Edinho Lobão e o deputado federal Weverton Rocha, é uma questão que precisa, sem dúvida, ser esclarecida. Muita gente comenta sobre isso em São Luís. Lembre-se que fizeram uma confusão danada, inclusive com a participação do Ministério Público, por conta de um aluguel de 12 mil reais. No caso da Difusora, como já tratamos aqui, é uma concessão pública, que recebe dinheiro público. E é um pouquinho mais que 12 mil reais mensais. Me parece que ali, dentro do decantado espirito republicano, se faz necessária uma fiscalização mais rigorosa. E por fim, uma eventual troca de Edinho Lobão por Weverton Rocha, não altera em nada a concentração dos meios de comunicação no Maranhão. É rigorosamente seis por meia dúzia. É indiferente se, circunstancialmente, um esteja apoiando um governo e outro alinhado a uma eventual oposição.

Como se explica uma rádio oficial paga com dinheiro do contribuinte ser orientada a anunciar a programação e até transmitir em cadeia um programa de rádio de uma emissora privada?

Você está falando da parceria entre as rádios Timbira e Difusora? Se for, é algo que não fica bem, pois indica – ou pode indicar – exatamente um privilégio de uma determinado veículo diante de todos os outros. A situação fica pior exatamente pelo fato da Difusora hoje ser ligada a um deputado que é aliado do governo do estado. Pode até ser uma parceria legal, não ter nenhum problema formal. Mas do ponto de vista político fica muito, muito ruim.

Existem coisas esdrúxulas aqui no Maranhão. Nas redes sociais, mais precisamente no Twitter, o Sistema Mirante de Comunicação e alguns de seus jornalistas são achincalhados por ocupantes de cargos públicos. Mas eles mesmos autorizam a liberação de verbas para a propaganda governamental. Mesmo com tantas transformações na comunicação ainda é preciso tomar a bênção para o poderio da Globo, no aspecto audiência?

Todos nós sabemos que as redes sociais têm sido canais muito interessantes, pelo poder que elas tiveram, e ainda têm, de minar as forças dos veículos tradicionais. Elas mexeram no tabuleiro da comunicação, especialmente num país como o Brasil, onde uma ditadura pariu a Rede Globo. Por outro lado, nem tudo são rosas. Esses espaços também têm sido marcados por uma ação intolerante, de estupidez, que reproduz o que nós temos de pior em nossa sociedade. Isso ocorre, de um modo geral, no país inteiro, não se limitando a políticos e jornalistas. Então, prefiro não acompanhar esse “debate”. Quando acontece alguma coisa de real relevância nessa “arena virtual”, nós sempre saberemos e teremos a chance de intervir.

Quanto à relação entre o governo Flávio Dino e o Sistema Mirante, acho que, até pelo discurso que o atual governo adotou, onde é dito que existe um enfrentamento ao grupo Sarney, deveria haver um outro tipo de postura em relação ao Sistema Mirante, que é o principal instrumento político da antiga oligarquia. É lógico que é muito contraditório um governo dizer que está enfrentando um grupo e financiar a principal arma desse grupo contra ele próprio. O passado recente mostra que isso não costuma terminar bem.

A comunicação de um governo se justifica pela obrigação que ele tem de prestar contas de suas ações. No caso do Maranhão, por mais que a Globo seja a maior audiência do país, isso não obriga um governo a prestar contas lá, no dito “horário nobre”, em uma das mídias mais caras do mundo. Principalmente se tratando do dinheiro de um estado pobre, onde essa Globo é associada a Sarney. Isso certamente pode interessar às agências de propaganda, que pensam empresarialmente, pensam no seus próprios lucros, interessadas em gordas e obscuras comissões. Mas se o entendimento fosse apenas político e administrativo, o caminho seria outro. E seria necessariamente mais criativo, mais transgressor e bem menos conservador.

Um jornalista independente em nosso estado é um ser de outro planeta? Brincadeira! Alguns jornalistas estão buscando seu próprio caminho no mercado, criando projetos e sites, como Liliane Moreira, por exemplo. Mas a maioria tenta arduamente sobreviver, como tão bem descreveu o professor Ed Wilson, em seu blog. Qual a saída? A Gol ou a LATAM?

Depende muito da forma como cada um encara sua carreira, aí entram as expectativas individuais, as aspirações, o que as pessoas entendem por isso. Certamente, existem conceitos e interpretações diferentes sobre autonomia e independência. Você pode construir toda uma carreira nos veículos tradicionais e se considerar independente ao estabelecer limites de obediência e subordinação.

Um aspecto relacionado a esse assunto é que, há mais de dez anos, o jornalismo vive uma fase de reorganização por conta da internet. Os jornais impressos, as rádios e as emissoras de TV, perderam força e, com isso, muitos perderam capacidade de arrecadação, impondo um enxugamento nas redações e diminuição dos postos de trabalho. Isso obrigou quase a uma reinvenção dessa atividade profissional.

Apesar das dificuldades, acho que não existe apenas uma saída para quem quer viver de comunicação. Cada um vai encontrar a sua fórmula. Existem os que fazem concurso público, os que buscam editais, fazem frilas, montam blogs, sites, têm trabalho junto a organizações sociais ou então, nos resta casar com alguém rico, que possa pagar as nossas contas (risos).

Vi uma entrevista recentemente, no programa do Aderbal Freire Filho, com uma bem sucedida diretora de teatro, a moçambicana Manoela Soeiro. Ela conta que, na impossibilidade de pagar as contas através de sua arte, montou uma padaria e, há trinta anos, mantém seu grupo, na África, por conta deste negócio que ela organizou junto com outros artistas. A padaria é vizinha do teatro onde Manoela trabalha, na cidade Maputo, a capital de Moçambique. Como se observa, sair do convencional, inventar seu próprio modelo, não é uma garantia de êxito, pode ser muito difícil, mas pode também funcionar…

A polarização da disputa política no Maranhão contaminou a classe. Há uma espécie de “Faixa de Gaza” no jornalismo maranhense: ou você é sarneyzista ou é dinista. Esse rótulo interessa a quem?

Acho que tem gente na imprensa maranhense fora disso, vivendo e trabalhando sem está submetido aos interesses de uma classe política ou sem vestir a camisa do patrão. Podem ter suas preferências, mas não estão submetidos. O problema está no que se costuma definir como “jornalismo político”. Aí o bicho pega! Em 2016, por exemplo, uma das pautas mais interessantes do Maranhão foi a denúncia do Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa, referente a funcionários fantasmas e várias outras distorções do Legislativo maranhense. O dito “jornalista político” local, no entanto, salve uma ou outra exceção, não foi atrás do assunto. A cobertura foi muito fraca, ruim, submetida a uma relação entre os deputados, os veículos e alguns profissionais da imprensa.

O que você chama de “faixa de gaza” não me parece assim tão antagônico. E sinceramente, Flávia, não dou a mínima importância a essa falsa polarização. A verdade é que raramente leio o que esse pessoal produz. Não me pauto por essa turma. Pra mim, isso é bem tranquilo. Simplesmente não me interesso pelas pautas que eles repercutem. Sou seletivo em relação a notícias. Faço uma distinção objetiva entre o que é notícia, de interesse público. E o que é mercadoria, noticiado a partir do interesse comercial do veículo, e aí vai da TV ao blog.

Vou te dar um exemplo: cai um avião com um time de futebol e vários profissionais da imprensa. De tudo que é transformado em “notícia”, só é de interesse público algo em torno de dez por cento. As grandes empresas de comunicação transformam a tragédia em lucro, isto é, em audiência, apelando para o emocional. E isso é cada vez mais comum no que seria Jornalismo. O caso Isabella Nardoni, por exemplo, onde uma menina teria sido assassinada pelo pai, é outro exemplo. Uma tragédia familiar é tratada como se fosse uma novela de grande audiência, travestida de “jornalismo”. Com o enfoque sendo todo distorcido, tudo pautado no mais escancarado sensacionalismo. Sinceramente, é bem melhor ir assistir a um filme no Cine Praia Grande ou no Cine Lume, que normalmente tem programações de ótima qualidade.

Fiz esse arrudeio todo para voltar ao que você está chamando aqui de “faixa de gaza”, que seria o “jornalismo político” no Maranhão. Ele reproduz esse modelo onde a notícia vira mercadoria. São informações que normalmente não nos interessam. O padrão é sempre o mesmo. Vários textos são para agradar um deputado, um prefeito, ou uma liderança maior, governador, senador e tal. Seja para atacar ou defender alguém. Lá não estão presentes as verdadeiras contradições da sociedade.

Se tivesses que aconselhar um estudante de Comunicação, cheio de sonhos de transformar o mundo e exercer seu papel social, o que dirias a esse rapaz ou a essa moça?

Prefiro pedir conselhos aos estudantes (risos). Verdade, acho fundamental ouvir os que têm 17, 18, 19 anos. Ouvi-los, enquanto ainda estão mentalmente jovens, pois alguns ficam caretas bem cedo, por influência da universidade, da igreja, da família ou do trabalho. Tornam-se mais um a seguir a procissão, “caminhando para morte, pensando em vencer na vida”, como disse Belchior. O x da questão “é compreender a marchar”, como diz outro poeta. Mesmo que nunca se consiga chegar a essa compreensão, devemos tentar. O processo, a tentativa por si só, já poderá ter a capacidade de nos tornar um pouco melhores.

Independente de profissão, a grande ambição que todos nós deveríamos ter é de sabedoria, que é bem diferente de conhecimento. Um pescador, que vive e trabalha na beira da praia, pode ser um sábio, enquanto jornalistas, médicos, cientistas sociais, engenheiros ou advogados, podem ser completamente ignorantes, submetidos à sua soberba. E a sabedoria, que é um troço difícil de conseguir, pode nos aproximar da generosidade, da solidariedade, de valores pouco estimulados numa sociedade onde prevalece o egoísmo, a violência, a busca por privilégios. A generosidade é sempre a favor da vida, enquanto o egoísmo é destrutivo, patológico. Isso fica claro nas questões políticas, sociais, ambientais e mesmo religiosas. Para muitas ideologias, a generosidade se resume às relações familiares, aos amigos mais próximos, em alguns casos a esmolas e caridades. A dignidade de todos não entra na pauta. As próprias religiões, ditas “cristãs”, pregam esse egoísmo, onde a fé torna-se um sentimento individual e, de certa forma, desprezível, inócuo. “É a tua fé que vai te salvar”, eles dizem! Diante disso, na busca por algum tipo de sabedoria, as vezes me parece que a dúvida é mais produtiva que a fé.

É nesse contexto que observamos pessoas sonhadoras e outras mais realistas, os utópicos e os pragmáticos. E, logicamente, existem os que conciliam ou tentam conciliar, em maior ou menor medida, o sonho com a realidade. O pragmatismo, ter os pés no chão, pode ser importante e até necessário. Mas a vida me parece absolutamente sem graça se você perde a capacidade de sonhar. Como diz Eduardo Galeano é “a utopia é que nos faz caminhar”. E como quase tudo na humanidade é ideológico; com a própria generosidade passando por ideologias; existem algumas delas que tentam frear, ou controlar, os sonhos e as utopias. Tem discurso religioso que diz que o ser humano é ruim. Pronto! Somos todos “pecadores”. Tá resolvido! E ainda tem uns tais “escolhidos”! Esses devem ser os que pagam o dízimo… Aí não existe mais utopia, nada mais a ser construído socialmente. É o céu garantido no futuro e a desgraceira aqui em baixo já resolvida. E tá resolvida por certezas aprisionadas em religiões. Então, é tratar de ganhar dinheiro e ter fé em Deus. Aí é foda! E só não ficou pior porque Eva paquerou com a cobra e caiu de boca na maçã… Foi uma sonhadora que se colocou contra o autoritarismo, optando por não seguir regras impostas.

Rapaz, mas como nós, os sonhadores, podemos viver num mundo onde o pragmatismo é a lei da selva?

Muito cedo, Flávia, quando eu ainda tinha menos de dez anos de idade, uma figura muito importante na minha vida; um artista que sempre viveu apaixonado, sonhando, me disse que “a vida era bem mais do que uma casa bonita e um carro novo”. Nunca esqueci disso. Depois, ainda menino, nos colégios de classe média alta onde estudei, ouvi muito se falar em “vencer na vida” e ficava pensando que vitória seria essa. Depois passei a refletir sobre a história da cigarra e da formiga. Você lembra dessa fábula escrota? É aquela onde a formiga trabalha e acumula, enquanto a cigarra canta. Na sequência da história, a cigarra passa privações enquanto a formiga usufruía do resultado daquilo que ela acumulou, dando lição de moral na cigarra e lhe negando solidariedade. É de uma escrotidão absoluta. É a negação do sonho, do lúdico, da arte e, principalmente, da generosidade, da solidariedade e da necessidade que nós temos de compreender e lidar com várias diferenças,pois nem todos nascem para formiga. Além disso, as cigarras, ao seu modo, também trabalham.

Acho que uma determinada visão de mundo é a maior vitória que podemos ter por aqui, nessa nossa marcha que é finita e transitória. Então, temos que estimular os sonhadores e a ambição de todos nós em direção a um pouco mais de sabedoria, em direção a uma utopia que, por si só, pode nos levar, quem sabe, ao prazer de sermos mais solidários, mais livres, generosos. Temos que tentar. Até porque, se não for por essa tentativa; se não for por alguma fome de amor, se não for por sonhos menos mesquinhos; o que faz sentido na vida? Se pelos menos caixão tivesse gaveta! (risos).

Flávia Regina

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