ESTUPIDEZ EM TRAJE DE GALA

O relato que segue foi escrito pelo professor universitário, Rogério Almeida, mestre em Planejamento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NEAB/UFPA) e doutorando em Geografia Humana. Autor de dissertação sobre o campesinato no sudeste do Pará, Prêmio NAEA/2008, da Universidade Federal do Pará, Rogério é um sujeito que conserva a subversão estudantil em meio à sisudez de certa docência presa aos muros acadêmicos.

Antes de se mudar de malas e cofos para o Pará, foi colaborador da revista Parla, fundada por mim e pela humorista e jornalista Dadá Coelho, em uma matéria lendária, com fotos de Geraldo Iensen, sobre o local conhecido como Xirizal do Oscar Frota, invisibilizado e discriminado no final da década de 90. Ele é e sempre será para mim Pixote, Rogério Pixote. Com estilo meio Xico Sá, pitadas de Pedro Juan Gutiérrez, rufares de tambores maranhenses e a malemolência do carimbó paraense, a escrita de Pixote grita. O texto faz parte do projeto O que 2020 me ensinou? Narrativas para o balanço dos dias. Leia e tire suas conclusões:

A VIDA SÓ É POSSÍVEL REINVENTADA

Rogério Almeida*

Embaçado, embaçado, embaçado. Tudo ao redor soa embaçado. Tal uma cabeça atormentada por um poderoso e original baseado. Embaçado. Aos moldes de uma lente de óculos de um cego em plena tempestade. Tempestade de intolerâncias intoleráveis emanadas do Central Planalto.  

O sinistro de estupidez em traje de gala em dia de parada nacional com a bíblia em punho a todxs, ou a ampla maioria, assaltou em perplexidade. Indagamos a todo momento: o que se passa no rio que irriga a vida em nossa aldeia? Rio, por ora, encharcado de maldades.  

ROGÉRIO ALMEIDA: POETA E JORNALISTA MARANHENSE RADICADO NO PARÁ

O caminhar se faz no caminho, sinaliza o sábio. E, nunca ele é feito sozinho, por mais solitária que pareça a jornada. Mas, quão pedregoso mostra-se o caminho. Urge um puxirum (mutirão) de bondades e re-existências, alerta a sabença ancestral.  

Realce: o saber não tá trancafiado em universidades. Faz mais de 500 ANOS que os parentes originários (indígenas) ensinam a todxs nós a remar contra a corrente do rio de iniquidades. Contudo, não percebemos os sinais.  Não buscamos compreender/aprender/apreender a gramática dos mestres em florestas, em rios, em seres vivos e encantados.  

Há séculos os parentes reinventam a vida sob as mais adversas condições (bala, bíblia, boi, etc). Mesmo antes de Cecília Meirelles, eles e elas já ensinavam que a vida só é possível reinventada. Esta, de forma amorosa, solidária e fraterna, qual aldeias e quilombos, em ciranda que é de todos nós.  

*Rogerio Almeida (Pixote) é natural de São Luís, Rua da Viração. Há mais de 20 anos radicado no Pará. Hoje mora às margens dos rios Amazonas e Tapajós, na bela Santarém, onde é docente/aprendiz na UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará), ao lado de Docinho (Thulla Esteves), sua compa.  

Ilustração da capa: Aroeira

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