DJAMILA RIBEIRO AFIRMA: “SUSPENSÃO DO FERIADO DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO MARANHÃO É UMA VIOLÊNCIA”

A ativista, escritora e filósofa Djamila Ribeiro atraiu uma multidão na noite de segunda (14), na 13a. Feira do Livro de São Luís (Felis), no Multicenter Sebrae. Djamila é uma das mais reconhecidas militantes do feminismo negro brasileiro na atualidade, com obras traduzidas e lançadas em países como  França, Bélgica, Bruxelas, acumulando multidões em filas de autógrafos que já chegaram a duas mil pessoas. Este ano, foi escolhida pelo governo francês como Personalidade do Amanhã para personalidades com projeção atual e impacto no futuro.

Em São Luís não foi diferente. A roda de conversa com filósofa foi acompanhada por centenas de pessoas que aguardaram até perto da meia-noite para terem seus exemplares de livros autografados, algumas vieram do interior do estado somente para o evento. Autora de Quem tem medo do feminismo negro? O que é lugar de fala? e coordenadora da Coleção Feminismos Plurais, Djamila escreve ainda para o jornal Folha de São Paulo a revista Marie Claire.

A conferencista iniciou a conversa com o público maranhense criticando a suspensão do feriado do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, no Maranhão, data de nascimento do líder Zumbi dos Palmares. “Essa Federação do Comércio e o Tribunal de Justiça cometem uma violência, uma violência contra a memória, a cultura do povo negro, na terra do tambor de mina, da Balaiada”, declarou publicamente. E relacionou o genocídio do povo negro a decisões como esta, de negação da história da população negra.

BATE-PAPO COM DJAMILA RIBEIRO ATRAIU A PRESENÇA DE UM DOS MAIS EXPRESSIVOS PÚBLICO NA FEIRA DO LIVRO DE SÃO LUÍS

Dia da Consciência Negra – O feriado passou a vigorar no estado em dezembro de 2017, após decisão proferida pelo desembargador Kleber Carvalho e referendada pelo Pleno do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão (TJ-MA), tornando legal (Lei 747/2017) o projeto de autoria do deputado Zé Inácio (PT). Uma  Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) foi ajuizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Maranhão (Fecomércio/MA), Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (Fiema) e Associação Comercial do Maranhão (ACM), questionando a validade da lei em face da Constituição Estadual. Na semana passada, o TJ-MA julgou procedente a ação sob a alegação de que a criação de feriados civis é tema atinente à esfera legislativa privativa da União.

A ATIVISTA NEGRA NA FEIRA DO LIVRO DE SÃO LUÍS: TÍTULO DE “PERSONALIDADE DO AMANHÔ PELO GOVERNO FRANCÊS

Mestre em Filosofia Política, a escritora falou do uso das redes sociais por mulheres feministas negras, cyberfeministas e defendeu a importância de comunicar, de visibilizar o movimento. “A gente criou blogs, canais no YouTube. As feministas negras foram muito inteligentes”, contou. E abordou, com profundidade, diversos aspectos que permeiam o racismo na sociedade, inclusive sobre a leitura de autores negros. Provocou ao mencionar aqueles que questionam “então agora não se deve estudar autores brancos?”, perguntam. “Mas estes sempre foram estudados”, explicou. “Isso de estudar os nossos teóricos, estudar os nossos ativistas significa criar um outro projeto de mundo, outras possibilidades de existência que nos restituam de humanidade, já que essa construção colonial nos destituiu, inclusive de sermos humanos. Nós não fomos alçados à condição de humanos. Num país como o nosso, em que a população negra passa por essa série de violências históricas, a gente pode se considerar cidadão, a gente pode se considerar humano?”, indagou.

Djamila Ribeiro visitou o Museu do Reggae, fez palestra para alunos do Liceu Maranhense e esteve reunida com o próprio governador Flávio Dino, obtendo do Governo o compromisso de ampliação das políticas públicas voltadas à população negra. Os dados, porém, ainda são trágicos e não aparecem nos releases oficiais: um levantamento do Atlas da Violência 2019 aponta que no Maranhão, de cada 100 pessoas assassinadas, 91 são negras. A cada mulher não negra morta, 8 negras são exterminadas.

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