CANTADA DO EXÍLIO

Neste sábado (28) que amanhece quente como fogueira, já sussurrando batuques, chacoalhar e a diversidade sonora extraída de madeiras e couros, em um festejo que celebra tradição única entre o sagrado e o profano, o blog traz o confessionário poético de Rogério Almeida – o Pixote para antigas interfaces afetivas.

Jornalista, poeta, pesquisador e professor universitário, Pixote hoje vive um exílio intelectual no Pará. Mestre em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido pela Universidade Federal do Pará (UFPA), é professor do Curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e doutorando em Geografia Humana da USP.

TEXTO DE ROGÉRIO ALMEIDA EVOCA FORÇA DA CULTURA POPULAR NO SÃO JOÃO DO MARANHÃO

Um sujeito de boa estirpe, destes que a gente tem na vida como figurinha preciosa do álbum de companheiros de sonhos e utopias, perscrustador e amante da cultura das quebradas e periferias como esta que ora escreve. “Assalta-me a melancolia a cada junho distante”, ele me diz pelo aplicativo de mensagens. Da melancolia à poesia. Leia e deleite-se:

O mar, o mar, o mar, tanto mar. Tão vasto é o mar a nos apartar. Lonjuras da terrinha e de Mainha. Assada carne de porco. Obituário do lugar.  Léguas e léguas a nos separar. Milhas de distância.  Casa das Minas. Baía de São Marcos. Oh, triste São Luís, cercada de águas por todos os lados.  Macondo de Gullar, à cada junho assalta-me a melancolia.

Saudoso do meu  lugar fico a chorar, a lembrar os batuques dos bumba meu bois. Forte e brutal, qual um tsunami a destroçar máscaras, arrogâncias, arranha céus, catedrais, palácios e casas de cambio, oh saudade tamanha.  Oh, medonha saudade.

Qual uma úlcera, devora-me com violência.  Saudade sem fim de belas toadas entoadas pela gente pé rachado. Desprovida de posses. Expropriada por oligarquias e capitais. Oh, Maracanã,  Maioba, Madre Deus, oh, meu Deus, onde estais, Iguaíba, Pindaré, brincadeira do mestre Leonardo?Oh minha pequena África, Oh, meu querido quilombo… Upaon Açu..grande, grande….lonjuras

Em mim, o florete da ausência do calor das fogueiras a afinar pandeirões dos brincantes fere fundo.  Ferida de morte. Ranhuras de amor não correspondido. Tão vasto é o mar a nos apartar. Lonjuras da gula da boca de uma deusa, oh divina dama…oh minha pequena África, Oh meu querido quilombo. Camboa. Viração. Brincadeiras de Rosário e Axixá. Azulejos coloniais no fundo dos zoio, paralelepípedos. Pedras de cantaria. Judiaria

Rogério Almeida

Fotos: Flávia Regina Melo

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