AS SOBRAS DA REALEZA

A foto grita por si só. Ao fundo, a capital do Maranhão com o maior acervo arquitetônico da América Latina dos séculos XVIII e XIX, cercada pelo mar, guardando lendas, belezas, exibindo vestígios de uma história singular.  O nome é uma homenagem ao rei da França, Luís IX, “São Luís”, canonizado em 1297, tornando-se referência histórica no conhecido “Século de Ouro de São Luís”. Em primeiro plano, o cobre das latas de cerveja, migalhas, restos de alimentos, recipientes de limpeza já utilizados. A cidade considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco é a mesma que possui quase 40% de sua população com rendimento nominal mensal per capita de até meio salário mínimo (38,8 %), a segunda pior renda entre as capitais brasileiras.

“MAIS ASFALTO” E MENOS HOSPITAIS: A CAPITAL DO MARANHÃO PAGA HOJE ALTO PREÇO

Na grave crise humanitária da atualidade, a Região Metropolitana de São Luís hoje concentra 92% dos casos de coronavírus do estado que tem a 8a. extensão territorial do Brasil, maior do que um país como a Itália. As últimas estatísticas oficiais apontam 2.804 casos registrados da doença e 166 óbitos. Segundo os dados divulgados, ontem (27), pelo Governo do Estado, 94,64% dos leitos de UTI rede estadual já estavam ocupados. Nesta terça (28), os principais hospitais públicos e também os privados, Hospital São Domingos, UDI e Centro Médico, já estão com 100% dos leitos de UTI para tratamento da covid-19 lotados. Qualquer um que adoecer, gravemente, na capital maranhense e precisar hoje (28) de internação, leito, respirador ou outro aparato de uma Unidade de Terapia Intensiva está irremediavelmente condenado à morte. Ou ainda, na melhor das hipóteses, sobreviver para aguardar as obras de adaptação de locais para novos leitos, feitas pelo governo estadual, previstas para serem concluídas nos próximos dias.

Segundo o estudo Cenário dos Hospitais Privados no Brasil 2019, da Frente Brasileira de Hospitais e da Confederação Nacional de Saúde, o Maranhão possui 62 hospitais privados (2019), 3.415 leitos privados, com uma média de 1,76 leitos por 1.000 habitantes. Um levantamento feito pelo jornal Folha de São Paulo aponta situação ainda pior: 1,12 leitos de UTI do SUS por 10 mil habitantes. Para se ter noção da tragédia instalada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima globalmente uma média de 3,2 leitos hospitalares por 1.000 habitantes.

A mais grave pandemia da contemporaneidade expõe as vísceras apodrecidas dos organismos sociais de todo o mundo. Após décadas com déficit de abastecimento d’água e de esgoto, com hospitais públicos de emergência funcionando como antessala do inferno, a capital maranhense agora assiste impotente à mortandade diária que se repete como filme de terror em todo o planeta. O asfalto eleitoreiro, as fábricas de licenças ambientais para construção de dezenas de condomínios cagando nas praias e rios, as licitações viciadas, as nomeações dos aliados, da parentada e da colegagem, os megalômanos projetos para desenvolvimento de meia dúzia de empresários e políticos e até mesmo o porto Riquinho Rico do Itaqui. Tudo isso agora derrete diante de um vírus.

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