ALICE VAN DEURSEN ESTREIA PROJETO DO BLOG: “O QUE 2020 ME ENSINOU?”

O blog Buliçoso inicia a série de testemunhos, depoimentos, artigos e até poemas em torno do tema O que 2020 me ensinou? Narrativas para o balanço dos dias. O ano devastado pelas mortes por Covid-19 merece ser registrado além das tragédias pessoais e coletivas, mas pela ótica do aprendizado.

A ideia surge do compromisso fundamental de Buliçoso com um jornalismo que não fique à mercê dos acontecimentos, que não seja um mero relator de fatos, mas que se proponha a fazer jornalismo a serviço da vida. O blog compreende este propósito e faz o inventário das lições deixadas. O texto a seguir é fruto das reflexões de Alice Pires Van Deursen, fundadora do jornal Vias de Fato que, em 2020, despediu-se da mãe, de um irmão e de dois tios. Alice, no entanto, acende uma fresta de luz com vida, escrevendo sobre um ano de mortes.

A VIDA EM MEIO À MORTE

                Alice Pires Van Deursen*

A situação política atual do Brasil me traz a sensação de que estou a bordo de um veículo sem motorista, que não tem freio e muito menos marcha à ré.  Temos um presidente que induz as pessoas a não terem medo da doença, mas a terem pavor da vacina. E um ministro da Saúde que afirmou não saber o que era SUS e nem entender porque tanta angústia diante de quase 200 mil mortes!

Lembro que, em 2018, perguntaram pro Ailton Krenak, o que os indígenas iriam fazer diante da eleição de um presidente que ataca e discrimina grupos étnicos. Ele respondeu: “Tem quinhentos anos que os indígenas estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos. Como vão fazer para escapar dessa?”.

O tempo só mostrou que o Ailton tinha razão. Aqui estamos nós, vivendo essa realidade distópica. Mas o aprendizado que fica é: não desesperançar jamais. É não tomar a pandemia como argumento para tempestades já instaladas dentro de si ou potencializar vazios já existentes. Podemos aproveitar esse momento para corrigir rumos ou delinear um novo caminho na carreira, por exemplo. Aprendi que posso viver perfeitamente em regime semiaberto, dourar ao sol e a valorizar a fonte de vitamina D que tenho bem na minha sacada, cantarolando esperançosa Milton e Elis: “Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã.”

ALICE PIRES VAN DEURSEN: “UM VÍRUS VEM E NOS ENSINA A PRESERVAR A NATUREZA, A BIODIVERSIDADE”

Eu diria que a necessidade de solidariedade global é uma das lições de 2020. Penso que o vírus já deixou bem claro que não respeita fronteiras, nem poupa ninguém. Já tivemos tempo e motivos suficientes para percebermos o quanto estamos interligados e somos interdependentes. No entanto, apesar da crise econômica mundial as fortunas dos bilionários aumentaram com a pandemia, alargando ainda mais o abismo da desigualdade social. Domenico de Masi, sociólogo e autor do livro O Ócio Criativo, disse que o coronavírus está nos ensinando que, para satisfazer as nossas necessidades radicais, não necessitamos de dinheiro, mas de “sentido de humanidade”.

Foi publicado um artigo na revista Nature, relacionando a pandemia diretamente com a poluição do planeta. De acordo com o artigo, os locais mais poluídos atraem mais vírus e contribuem para a sua rápida propagação. Foi o que aconteceu com a região da Lombardia, na Itália. De repente, vem um vírus e nos ensina a preservar a natureza, a não poluir e a proteger a biodiversidade. Diante disso, eu fico com a pureza da resposta de Davi Kopenawa Yanomami no livro A Queda do Céu: “a floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, os espíritos não serão capazes de espantar as fumaças de epidemias que nos devoram. Então morreremos um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Quando não houver mais nenhum xamã vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”.

Eu nunca fui atormentada pelo medo da morte – embora já tenha sentido o hálito desta senhora na minha nuca, quando levei um tiro  e em outras ocasiões quando médicos me deram prazo de vida. O que não me exime do autocuidado e do cuidado com o outro. A maioria da minha família é do grupo de risco, a diabete está no gene. E, apesar de todos os cuidados possíveis, a Covid-19 não nos poupou. Eu tive um ano extremamente difícil, além das perdas familiares, enfrentei duas cirurgias, sendo a última bem recente. Não é fácil saber que tenho que conviver com a impossibilidade de pedir a bênção de minha mãe e abraçar cada um que se foi.

No entanto, para mim, o entendimento do Evangelho desmistificou a morte. Eu prefiro não me deixar picar pelos ferrões que envenenam a alma causando ansiedades, tristezas, fobias, pânicos e tantos outros males. Lutei contra a força do luto, mergulhando no trabalho e me dedicando a um mestrado na UFMA. A lição deixada é que às vezes temos que encarar a morte e nos  posicionar diante dela.

A sugestão para esta pandemia é beber mais cultura e arte e menos remédios, menos calmantes e amadurecer para o que seja vida!

*Alice Pires Van Deursen é graduada em Pedagogia e Teologia, mestranda em Cultura e Sociedade (UFMA), fundadora do Jornal Vias de Fato, membro da Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAI) e pertence às tribos de esquerda e às comunidades dos povos tradicionais.

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