Alcântara e o tesouro enterrado

Corre a lenda de que, quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, em meados do século XVIII, por obra e graça do Marquês de Pombal, trataram de esconder a imensa riqueza, em ouro e pedras preciosas, enterrando-a ao pé de tamarindeiros e outras árvores frondosas, que guarneciam a entrada das fazendas. Os escravos, a quem competiu a tarefa de cavar as covas, tinham depois os olhos furados, para que, cegos, não soubessem indicar, depois, o local de esconderijo do tesouro.

Daí segue-se, nas histórias envolvendo a procura do dinheiro perdido, relatos de aparições de espíritos de negros e brancos, se engalfinhando à beira das covas, uns querendo que a fortuna seja, afinal, localizada e distribuída como forma de remissão dos pecados, e outros, tentando impedir o seu resgate, para que a alma do azarento permaneça na sua penitência eterna.

Na minha terra, o Ibacazinho, havia em um antigo cemitério dois velhos tamarindeiros, um ao lado do outro, debaixo de cujas raízes se acreditava haver uma canoa com moedas de ouro, pertencente aos proprietários da fazenda São Bonifácio do Maracu, marco inicial da colonização de Viana. Diziam que, em tempos idos, detectores de metal indicaram a localização ali de um depósito de ouro. Porém, jamais foram feitas escavações, temendo-se a reação do além.

Na Praça da Matriz, em Viana, ao lado de um cruzeiro, dizem que foi encontrada uma pepita, pesando mais de 1.000 gramas. O assunto ganhou destaque até na Voz do Brasil. Nunca ficou provada a sua existência, mas a cova aberta no local, medindo mais de dois metros de comprimento, mostrava que alguém tentou localizar ali algum objeto. O certo é que esses relatos de escavação, em busca do tesouro perdido, proliferam aos magotes, para incendiar a imaginação dos incautos ou daqueles com espírito de aventura.
Um vigilante com quem fiz amizade, e que prestava serviços em uma entidade sindical, localizada na Rua do Sol, contou-me uma história no mínimo curiosa. Na juventude, costumava ir aos sábados para Alcântara, onde havia um parente com quem pescava camarão. Certo dia, ele se atrasou na travessia da baía de São Marcos, e chegou já ao cair da noite na cidade. Vendo que o primo havia partido para a pescaria, e como não dava para retornar a São Luís àquela hora, decidiu entrar na casa às escuras. Não havia ninguém. Apenas silêncio e sombra.
Armou uma rede nas escapas do quarto da frente, acendeu uma vela e ficou ali, sozinho com seus pensamentos, à espera do sono. Lá pelas dez da noite, já com os olhos pesados, apagou a vela e tentou dormir. Ouviu um leve ruído vindo da cozinha, parecido com pratos e colheres em atrito. O barulho cresceu, os pratos eram arremessados ao chão com violência, espatifando-se. Sobressaltado, ouviu passos apressados vindos da cozinha, na direção da porta do quarto. Como um gato, acendeu a vela, puxou pela faca presa à cintura e saltou para a porta. Os passos cessaram de repente e tudo voltou à paz de antes.

Novamente apagou a vela, mas desta vez nem deu tempo de fechar os olhos. O abajur da sala veio ao chão espalhando pedaços de vidros para todos os lados. Berrou feito um louco e correu para a porta da rua. Lá fora tudo eram sossego e solidão. Entendeu que não podia mais ficar ali. Lembrou-se de um casal amigo, ainda em núpcias, que morava numa rua próxima. Correu até lá, contou sua estória e pediu abrigo. Prontamente acolhido, armaram-lhe uma rede na sala, rente à porta da rua. Sentindo-se seguro, descansou e dormiu.

Sonhou com um homem alto, de batina, olhos claros, calvo, barba comprida, a lhe falar ao ouvido. Dizia que na casa onde há pouco estivera, havia sob o chão da despensa, ao lado da cozinha, uma enorme arca com moedas de prata e de ouro, além de um crucifixo de brilhante. O espectro implorava-lhe para que cavasse o local – eram apenas dois metros de profundidade – e retirasse o tesouro, que representava a libertação do cativeiro em que se encontrava. “Fique com o dinheiro e resgate a minha alma deste martírio em que me encontro”, exortava, exibindo-lhe a riqueza aos olhos. Sobre a tampa da arca viu balançar uma enorme argola de ferro.

No dia seguinte, logo bem cedo, armado de foice e enxada, voltou a casa do primo, que já retornara da pesca. Com muito esforço, convence-o a permitir que escavasse o local indicado e que até o ajudasse na empreitada. Não demorou muito, e a foice bateu em algo metálico, provocando um ruído estridente. Limpou o local e descobriu uma argola enferrujada, a mesma que vira no sonho sobre a tampa da arca.
Deu um grito de alegria e retomou a escavação com ânimo redobrado. Com o auxílio do primo, retirou o velho caixão do buraco e deram início ao esforço para abri-lo. Nisto, porém, surgiu diante deles o fantasma de um negro, olhos esfogueados, que falava cuspindo brasa. “Larguem isso, que não lhes pertence. Se abrirem essa arca, a maldição que ela carrega passa para vocês também. Ninguém restará vivo depois dela”. Apavorados, recolocaram o baú no buraco o enterraram novamente. Os dois arderem em febre por três dias e três noites e por esse período não reconheciam ninguém, nem eles próprios.

Texto: Nonato Reis
Foto: Handson Chagas

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