AGÊNCIA TAMBOR CONSOLIDA “RESISTÊNCIA” EM PROJETO DE COMUNICAÇÃO POPULAR INÉDITO NO MARANHÃO

Em 2019, a Agência Tambor completou um ano de existência. A primeira experiência de comunicação popular, livre e alternativa no rádio maranhense, produzida por uma agência de notícias em defesa do interesse público, resiste em meio a um campo marcado pelo controle de veículos de comunicação arrendados ou financiados por grupos políticos, pela editorialização de fatos para atender a objetivos partidários ou privados e pelo comércio de blogs.

Durante mais de um ano de existência, a rádio Tambor entrevistou lideranças indígenas ameaçadas de mortes, quebradeiras de coco expulsas das terras, moradores de comunidades violentadas com o aparato do Estado, artistas, intelectuais, personalidades literárias internacionais, como a escritora Silvia Federici, representantes do movimento LGBT, professores universitários, mulheres negras, cineastas, líderes de cultos de matriz africana, em um recorte significativo das franjas da sociedade brasileira, notadamente do Maranhão, estado síntese do país. O projeto foi reconhecido por movimentos populares por exercer papel fundamental no primeiro ano do governo Bolsonaro, marcado por atentados aos direitos sociais e trabalhistas, por apologia às barbáries cometidas pelo período da ditadura militar, entre outros retrocessos.

A jornalista Flávia Regina Melo, editora do blog Buliçoso e âncora do radiojornal Tambor, escreveu, em forma de crônica, sobre a experiência de apresentar o programa. O texto foi publicado, ano passado, em uma edição especial do jornal Vias de Fatos, celebrando um ano da Agência Tambor. Leia:

Comunicação com cara de Tambor que amanhece, sim!

Toda jornalista com um pé na literatura ou uma mão que desmunheca para a criação publicitária está sempre catando uma frase que funcione como espécie de tábua de salvação de seus textos. “Jornalista, insisto” passou a ser minha máxima preferida, após tantos temporais enfrentados durante árduas experiências que me fizeram de profissional da notícia a manchete de capa de jornalecos pagos com dinheiro público e postagens de blogs sujos por caixas dois, agiotagens, interesses eleitoreiros, inveja, mau olhado, frieira e outras pragas de mau vizinho. Informação é poder irrevogável. E o poder, como se sabe, é uma formidável bebida não recomendada para fracos e desnutridos. Abraham Lincoln dizia que para colocar o caráter de um homem à prova, bastaria que lhe dessem poder.

Corta para outro plano. Outubro de 2017. Uma articulação entre diversas entidades populares, entre elas a ABRAÇO Maranhão (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias), a Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, o jornal Vias de Fato, o meu blog Buliçoso, o Sindicatos dos Bancários do Maranhão, a APRUMA, o Coletivo Nódoa, o Movimento de Defesa da Ilha, a Carabina Filmes e a Casa 161 resultou em um seminário com temática inédita: Comunicação e Poder no Maranhão. Parte da esquerda maranhense, hoje incrustada nos poderes do estado com maior concentração de rádios e TVs controladas por políticos, classificado pela jornalista Elvira Lobato como o “extremo deste fenômeno”, jamais havia antes debatido uma questão crucial para a cidadania, a democratização da comunicação. Quebradeiras de coco, indígenas, radialistas comunitários, professores universitários como Wagner Cabral, representantes de organizações em defesa de uma comunicação popular, como Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação, do Rio de Janeiro, (NPC) e Gustavo Gindre, do Coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes) participaram do evento.

ESTREIA DO PRIMEIRO PROGRAMA DA AGÊNCIA TAMBOR, EM 2018, EM PARCERIA COM A ABRAÇO-MA, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA

Onde há poder, existe contrapoder. O evento resultou na criação da Agência Tambor, em março de 2018. Além do portal de notícias, a agência veicula, de segunda a sexta, às 11h, o Jornal Tambor, pela rádio web Tambor. Na grade da programação da Tambor, há ainda o programa Na Boca do Caixa, do Sindicato dos Bancários do Maranhão, às 9h, todas as quartas-feiras, e o Papo de Crente, aos sábados, na direção contrária das bancadas evangélicas dos parlamentos. Pois bem, sou a voz escondida por trás das teclas nervosas deste notebook. Apresento o radiojornal Tambor, com a valiosa participação dos jornalistas Emílio Azevedo, editor do Vias de Fato, Ed Wilson Araújo, professor universitário e presidente da ABRAÇO, operação técnica de Lívia Lima, produção de Rejane Galeno, Lemos Júnior e Altemar Moraes.

Experiência inédita – A Agência Tambor, que tem a rádio Tambor – em parceria com a Associação Brasileira de Rádios Comunitárias no Maranhão (Abraço-MA) – sua primeira produção, é um instrumento a serviço de uma outra comunicação possível. É um ideal acalentado por um grupo regido pela utopia viável, pela práxis alada e pelo afeto clamando por igualdade e justiça. O tambor é o primeiro instrumento de comunicação que se tem notícia. Estamos no Maranhão dos tambores, estado com maior população rural do país e a última província a abolir a escravidão. Não à toa um tambor ocupa, há anos, a sala do meu apartamento. Estamos indo, além dos fatos, visibilizando quem não existe para a grande mídia, dando voz aos que são silenciados pelos interesses privados, mesquinhos e devolvendo ao jornalismo a função social comprada para a formação de uma mídia hegemônica comercial e pasteurizada. A primeira experiência de comunicação popular, livre e alternativa no rádio maranhense significa muito mais do que divulgar assuntos de interesse comunitário, sindical, em defesa dos direitos fundamentais, da democracia e da cidadania.

EDIÇÃO ESPECIAL DO JORNAL VIAS DE FATO COMEMORA UM ANO DA AGÊNCIA TAMBOR

Nas mais diferentes etapas da história humana, política e comunicação foram coautoras das revoluções progressistas ou das barbáries atrozes. Porém, em nenhum outro contexto da ora fragilizada “democracia  brasileira”, as organizações sociais e sindicais estiveram tão necessitadas de meios de comunicação cujos interesses e mensagens não sejam veiculadas a serviço do capital, de um modelo predatório de desenvolvimento e de grupos privados descomprometidos com a solidariedade a justiça. Desta forma, derrubando o mito da neutralidade jornalística, assumimos nosso posicionamento editorial, a nossa opção que justifica o propósito da própria comunicação, um campo de inclusão, de mediação e, dentro deste intuito, de tornarmos protagonistas quem é “invisível”. O nosso desafio envolve muitos aspectos, o de uma comunicação popular, sim, mas criativa, irreverente e de convergência com as novas tecnologias para a democratização do acesso aos conteúdos que não estão na pauta dos veículos conservadores. Em nosso produto radiofônico, temos vinhetas como: em cima da Bucha, na gira! Presta atenção no serviço e um quadro de entrevistas diário chamado de DEDO DE PROSA. O rádio – hoje ressignificado pelas amplas possibilidades das redes sociais – é um instrumento poderoso para o nosso propósito.

Por nossos microfones já ressoaram as vozes de indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e LGBTs, mulheres, feministas, cineastas, escritores, quebradeiras de coco, moradores da periferia, trabalhadores, militantes dos direitos humanos, que atuam em defesa de crianças e populações de rua, professores, pesquisadores, transformistas, artistas, líderes de religiões de matriz africana e todos que, em seus espaços de atuação, militam em defesa de suas causas, em livre tradução, em defesa de uma consciência solidária e, por isso mesmo, amorosa. Ao vivo, nossos ouvintes já escutaram Seu Clóvis da comunidade do Cajueiro chorar. Em forte depoimento, o indígena Inaldo Kum´tum Akroá Gamela, ameaçado de morte, também se emocionou e fez meus olhos marejarem durante a entrevista. Para mim, na condição de jornalista que insiste em ser jornalista, cada entrevista corresponde a uma aula de democracia. As histórias de vidas narradas, as injustiças denunciadas compõem a imensa colcha de retalhos do esgarçado tecido social do Brasil. Diante da conjuntura atual, do bolsonarismo abjeto, de golpes políticos e saques aos direitos sociais e trabalhistas com a conivência da mídia, da disseminação da cultura do ódio, de uma onda conservadora e reacionária amplificada pelos ventríloquos do jornalixo, acreditamos que a alternativa para restaurar o Estado Democrático de Direito, ferido mortalmente, é a Comunicação, popular, comunitária e livre das rédeas do deus capital excludente, que promove a individualidade, a competitividade, destruidor de nossos sonhos.

Existe uma expressão safada no Maranhão para descrever quem transgride, quem subverte as normas, quem com gaiatice faz algo, a de alguém que tem cara de tambor que amanhece. É essa comunicação que queremos: uma comunicação com cara de Tambor que amanhece!

Que o rufar dos nossos tambores traduza vozes jamais caladas!

Texto: Flávia Regina Melo

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