A “GUERRA QUÍMICA” QUE BOLSONARO NÃO VÊ

Em mais uma das habituais frases, oscilando entre ilação e platitude, o presidente Jair Bolsonaro trouxe a versão polêmica sobre a possibilidade de fabricação intencional do coronavírus pela China: “os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica”, afirmou na semana passada.

Distante 331 quilômetros de onde o chefe da nação expele suas declarações, a pequena cidade de Buriti virou alvo das atenções nacionais, na semana passada, por causa de uma outra guerra química: aviões que sobrevoam áreas, despejando agrotóxicos, provocando coceiras, dores de cabeça, bolhas, vermelhidão, febre, diarreia, vômitos e fortes suspeitas de contaminação nos moradores da região.

O município possui um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) considerado baixo, de  0,548. É mais, um entre os 217 municípios maranhenses, a contribuir com o resultado excepcional alcançado pela agropecuária maranhense que, em 2020, registrou o maior valor dos últimos 10 anos, R$ 12,08 bilhões, o segundo maior do Nordeste. O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VPA) maranhense integra um levantamento feito pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Ao contrário de parte da população maranhense – que periodicamente é atingida e lesada por uma grande obra de infraestrutura, como a duplicação da BR-135; o Centro de Lançamento de Alcântara; o transbordamento de uma barragem da mineradora Aurizona, em Godofredo Viana; a poluição degradante em Piquiá de Baixo, Açailândia, causada pelas siderúrgicas –  o agro embalado como “pop” vai muito bem. O setor agropecuário brasileiro faturou cerca de 1 trilhão de reais em 2020. A Vale faturou mais de 5 bilhões e meio de dólares. Lucros estratosféricos em plena pandemia.

Dados divulgados, em dezembro do ano passado, pelo Instituto Maranhense de Estudos Sócio Econômicos e Cartográficos (Imesc), estimaram que a produção maranhense de grãos para o ano de 2020 era de 5,4 milhões de toneladas, um aumento de 9,1% comparado à safra de 2019. Farinha muita, mas pouco pirão sobrando para um milhão e 400 mil maranhenses que vivem na extrema pobreza.

REGISTRO DO MENINO ANDRÉ LUCAS, DE 7 ANOS, ATINGIDO POR AGROTÓXICOS FEITO PELO ADVOGADO DIOGO CABRAL

Além de Araçá, as localidades de Carranca, Capão, Belém, Angelim, Cacimbas, Mato Seco, Brejinho e Baixão também são afetadas pela pulverização e sofrem outros impactos ambientais, causando condições na vida degradante das famílias de lavradores. O suspeito de despejar o veneno que atingiu pessoas da comunidade, Gabriel Introvini, proprietário da Fazenda São Bernardo, é apontado também como responsável por outros conflitos que causam doenças na comunidade há quatro anos.

O menino André Lucas, de 7 anos de idade, sofreu graves queimaduras por todo o corpo após a pulverização de agrotóxicos feita por uma avião que sobrevoava roças e casas na comunidade de Araçá. A denúncia, feita em primeira mão pelo advogado popular Diogo Cabral, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, obteve repercussão nacional e internacional. A Secretaria de Meio Ambiente do Governo do Maranhão informou que embargou a atividade e também aplicou auto de notificação e infração no valor de 273 mil reais.

Apesar da atuação do órgão, existem 560 estabelecimentos comerciais que vendem defensivos agrícolas registrados pela Agência Estadual de Defesa Agropecuária (AGED), 1.538 cadastros de agrotóxicos e 58 registros de prestadores de serviços.

Enquanto o Ceará se tornou, em 2019, o primeiro estado brasileiro a proibir a pulverização aérea de agrotóxicos, o Maranhão segue com a permissividade de violar territórios, degradar recursos naturais e afetar a saúde de comunidades inteiras sob o pretexto de “desenvolvimento econômico”. Desenvolvimento para quem?

Fotos: Adriano Machado (Reuters) e Diogo Cabral

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *