A ESCRITA BULIÇOSA DE ROGÉRIO ALMEIDA

Domingo chuvoso na ilha das águas. Lá do Pará caudaloso, generoso, amazônico, a escrita do jornalista e professor universitário Rogério Almeida aquece e atiça. Mantemos escambos literários, vez por outra. Ele pergunta: “cabe na estética do Buliçoso?”. Cabe como um chamego numa rede em um dia de chuva como hoje. Para mim, é coisa de Pixote que brinca com meu Erê. Como esta aqui que tecla a vocês, ele também foi finalista do Prêmio Off Flip de Literatura, da Festa Literária Internacional de Paraty. Rogério Pixote escreve, bulindo com as palavras e os instintos: “Sonhei que a gente se bulia numa rede de algodão. Um forró fora da quadra de São João abençoado pelas maldades do deus Baco.  Capitães da areia em capoeira. Um combate de bocas e pernas”. Leia abaixo:

Dias…o que dizes?   Dias. Tudo bem contigo? Espero que sim. Sonhei que a gente se bulia numa rede algodão. Havia apreensão em seus olhos. O risco da chegada inesperada de alguém. O desassossego de interrupção do rito amoroso. Um flagrante. Crime passional. Gritos, insultos, soco, faca e bala. Corpos nus desprovidas de vida. Um sobre o outro. Um dentro do outro. Angu de sangue. Notícia de jornal.

A tarde estava tomada de chuva.  Céu de amor em casa avarandada. Passarinhos em danação. Vento suave. Folhas e frutos ao chão. Rede de algodão. Cheirosinha. Amaciante de bulinação. Você a judiar do meu corpo e da minha alma. O cego forte. Rijo. Qual um sorvete de doce algodão a enfrentar vento de praia no litoral do Maranhão. Touro de São Sebastião. 

Ecumênico ateu a rogar por forças a Jesuscristinho, Nossa Senhora de Nazaré, e aos tambores do candomblé. Mautiner atômico em maracatu aperreado em ladeira da Cidade Velha. Danação dos diabos em ebulição. Arrebatação. Arrebentação. Tensões. Tesões. Muro de arrimo em ruínas. Só ruínas…..

Sonhei que a gente se bulia numa rede de algodão. Um forró fora da quadra de São João abençoado pelas maldades do deus Baco.  Capitães da areia em capoeira. Um combate de bocas e pernas.

Bulinação de rede. Pressas e desassossegos. Agonia e lentidão. Suspiros profundos entregozos.  Tempestade tropical. Beira de rio.  Amores líquidos. Café forte. Cuscuz de arroz em forma de coração. Cochilo profundo. Sem forças. Moribundo do amor sob laje de grande cidade. Sem pernas para fuga, acorrentado aos braços de uma deusa de ébano à espera do juízo final… o sol…há de brilhar mais uma vez….

Rogério Almeida é jornalista, formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Maranhão. Cursou especialização e mestrado em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido pela Universidade Federal do Pará, no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA). É autor da dissertação Territorialização do Campesinato no sudeste do Pará, laureada com o Prêmio NAEA/2008. É professor da Universidade Federal do Oeste do Pará.

Ilustração: O namoro na rede (Galeria virtual Elo 7)

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