A CINZAS DAS HORAS

Um novo ciclo administrativo nos 5.570 municípios brasileiros exige que a sociedade perceba qual o projeto de cidade a ser desenvolvido pelos eleitos. São Luís já teve prefeitos que foram ótimo jardineiros. Outros, notabilizaram-se pela preocupação com a mobilidade urbana, às vésperas do final do mandato, deixando na cidade onde circularia o fantasma de Ana Jansen a lenda do VLT. Recentemente, houve a “administração das pracinhas”, que renderam até memes nos grupos de aplicativos de mensagens com figurinhas do ex-prefeito Edivaldo Holanda Júnior afirmando: “vou acabar com esse grupo e fazer uma praça!”. Maquiagens à parte, a realidade permanece nua e crua.

O século XXI se impõe com a força de problemas que jamais serão resolvidos com pintura na fachada de um prédio em vias de desabamento. A capital do Maranhão é uma cidade segregada, dividida entre os habitantes privilegiados de bairros como a “Península” (dos self made men ou women aos que se tornam alvo das operações da PF) e a periferia sitiada pelo grupos de tráfico. A ciclovia do bairro da Ponta d’Areia é uma iniciativa valiosa, mas excludente se considerarmos que a maioria dos ludovicenses usa a bicicleta não para o esporte ou lazer, mas como meio de transporte para se deslocar, por exemplo, da Cidade Operária ou do Maiobão para seus locais de trabalho.

MORADORES DE RUA NO ENTORNO DO MERCADO CENTRAL: PROBLEMA CRÔNICO DE DÉCADAS

A quebra no ciclo administrativo político de São Luís precisa representar também a construção de um novo paradigma, um modelo de cidade que se traduza em acesso menos desigual aos serviços e obras públicas.  Historicamente, os projetos de cidade desenvolvidos, nas últimas décadas, representaram apenas manutenção das políticas públicas já desenvolvidas, contemplando a população de bairros periféricos apenas com asfalto, uma ou outra obra, e nenhuma inovação.

Todos os anos, a maior cidade do estado enfrenta os mesmos problemas estruturais jamais resolvidos, tais como as enchentes e ameaças de desabamentos causadas por águas das chuvas, na maioria das vezes nos mesmos pontos. Ano após ano, a população em situação de rua pode ser observada nos entornos do Mercado Central, com a ferida da dependência química a céu aberto e em plena luz do dia. São problemas antigos somados aos novos, como o aumento da poluição atmosférica, os congestionamentos crônicos no trânsito sem uma solução que seja mais original do que a colocação de cones.

GRUPOS DE TRÁFICO DISPUTAM O COMANDO E A “ADMINISTRAÇÃO” DOS BAIRROS DA CAPITAL

E em escala ainda maior: com apenas duas semanas de 2021 e o início de um novo mandato, é fundamental que o Executivo municipal apresente um Plano Diretor menos predador, sem comprometer o futuro da cidade e de seus cidadãos.

Nota: As fotos foram feitas pela editora do blog, na região do Centro Histórico da capital, proximidades do Mercado Central. Os relógios estão em um galpão aberto e improvisado ao lado do mercado e funcionam como acessório ao título A Cinza das Horas, nome de uma obra do poeta Manuel Bandeira, que em um dos poemas, Epígrafe, empresta significado à situação de São Luís:  

Sou bem-nascido.

Menino, Fui, como os demais, feliz.

Depois, veio o mau destino

E fez de mim o que quis.

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